quinta-feira, 19 de abril de 2018

dos sítios altos.

«A minha vida é um autêntico electrocardiograma», dizia, entre a constatação e o queixume. Não tinha ainda compreendido a riqueza de ser profunda, densa, viva. Não sabia que ser rasa não é para almas inteiras e grandes, que ser pequena não se coaduna com o sangue que lhe ferve, que há um sentir de que quem gosta de ser e de se dar não abdica. 

Então divide-se entre lágrimas e sorrisos, a alegria das chegadas e a tristeza das despedidas, o êxtase dos dias bonitos e o pesar das noites escuras sem luar. Fechada nos Invernos para florir nas Primaveras, vai com leveza nos passos e põe nos sonhos todo o insustentável peso.

O que importa é não esquecer de fitar o horizonte dos sítios altos.

[ in @anarendalltomaz ]

quarta-feira, 18 de abril de 2018

[ anti-racismo ]

De cada vez que dizemos «eles», segregamos. 

De cada vez que nos referimos aos outros como parte de outro grupo, dividimos.


De cada vez que nos distanciamos deles, damos lugar à separação.


Por duas vezes tão distintas, fizeram-no ao pé de mim. «Eles», os pretos. «Eles», os muçulmanos.
Como se «eles» não fossem parte da população mundial que também «nós» integramos.

Ao tornar um determinado grupo num grupo, excluímos - os que supostamente fazem parte dele e também quem fica de fora. Se apontar como diferente e categorizar humanos, dou espaço a que qualquer tipo de segregação seja legítima. Tu vais para um lado porque és isto, tu fazes aquilo porque és aqueloutro.
Como se não fossemos todos parte deste estranho lugar que habitamos. Como se houvesse raças de humanos além da raça humana, a única cuja existência efectivamente reconheço.

Li há dias que numa sociedade racista, não basta não ser racista; é preciso ser anti-racista.

Nasci anti-racista.

Não sei como fazer para reverter preconceito, seria preciso reverter ignorância, acrescentar inteligência, inserir princípios que deveriam ter sido incutidos e encaixados por memória genética.

Há algum tempo, na minha mesa de café, alguém defendia que Portugal não era um país racista. A pessoa em questão tinha particularidades e um contexto que não fundamentavam uma opinião credível: a tez pálida, os olhos claros e o tom alourado do cabelo não permitiriam que soubesse do que falava, já que sempre viveu num país europeu em que o preto é descrito como preto. Não ser racista não implica que a sociedade que nos rodeia não o seja.

Dizia ela que não existia racismo em Portugal, que na sua família sempre tinha sido comum o convívio com quem não era branco, que já não havia qualquer tipo de diferença no comportamento perante quem apresenta características físicas que não se coadunassem com as suas.
Que engano bom. Quem dera que assim fosse. Só mesmo quem não tem noção da realidade pode afirmar algo tão longe de ser verdade com tamanha convicção.

Nascida e criada numa família tão cosmopolita como caracterizada pela mistura de carga de melanina, só descobri o racismo quando outros meninos me apontaram o dedo por ser filha de uma preta. Não percebi, como hoje não o percebo, mas reagi como um ser sensível e cheio de luz: «mãe, quero ser como tu», chorava.

Os meus pais contornaram a situação alegando a riqueza que é ser mestiça: «meu amor, tu não és só leite, não és só chocolate, és ainda melhor - leite com chocolate!».
Infelizmente, isso não chega para começar a usar saias sem vergonha a partir de Abril. A minha cor de lula nunca foi razão para que me orgulhasse. Orgulho, sinto de mim, por me ter surpreendido quando uma tia sublinhou o facto de o Lenny Kravitz ser mulato. Nunca tinha olhado para ele assim. Achava-o fenomenal, simplesmente. Bonito. Não pensei nele como um ser com maior quantidade de melanina que outros.
Não penso assim. Não vejo assim.

E dói-me quando alguém olha com espanto e interrogação para aquele casal que tenho como parte do meu círculo de amigos como a preta que namora com o branco. Ou quando alguém da família dela lhe diz que devia encontrar um marido escuro como ela.
É tão absurdo como não gostar de alguém por só ter um rim - é uma diferença semelhante. Ou por ter nascido com cabelo liso. Ou por ter nascido com dois dedos do pé colados.

É invólucro.

Hoje sei que ter vindo ao planeta nesta mistura de fado e semba faz de mim um ser humano híbrido, na verdade. Pleno. Demasiado escura para a Europa, demasiado branca para África. Do mundo inteiro, afinal.
Não tenho carapinha, mas tenho um rabo grande, um nariz com ponta redonda e os lábios carnudos. Sou feita de fragmentos de dois pólos maravilhosos.

Pouco depois de nascer, a minha mãe foi abordada na rua, numa terra pequena onde o meu pai dava os primeiros passos na sua carreira. Uma velhinha queria ver a menina, a filha do veterinário. A minha mãe mostrou-me à inofensiva senhora, que assim que teve um vislumbre da minha pele, se ajoelhou e erguendo os braços ao céu, exclamou «Graças a Deus! Graças a Deus que a menina saiu branquinha como o pai».
Condescendente, a minha mãe ri-se ainda do episódio. O meu pai expulsou a velha, eu ainda hoje me sinto chocada pela demonstração de tão atrevida estupidez.

Não lido bem com racismo. Não gosto quando me dizem que a minha mãe é quase branca, como se fosse preciso desculpá-la ou aliviar o horror que é não se ser claro. Não gostei quando lhe disseram para chamar a patroa, assumindo que alguém com aquele tom de pele não poderia ser a dona da casa. Fiquei furiosa quando uma superior lhe disse que iria gostar da nova colega, que era pretinha mas muito inteligente. Não pode haver tolerância para quem não sabe que devia ter vergonha de sentir ou pensar com preconceito, quanto mais abrir a boca para o verbalizar.

Esta subvalorização de quem não detenha características que se assemelhem às nossas é fruto de uma óbvia sensação de superioridade. Interessante é notar que a minha mãe nunca se fez valer da sua formação académica superior à de quem a discrimina, do nível financeiro avultado que caracterizou a sua existência, do facto de se mover numa classe social elevadíssima.
No entanto, eu não sou dotada dessa elevação toda. Já estraguei alguns momentos, confesso. Já arruinei jantares por não me calar quando alguém decide não esconder o seu racismo.

É verdade, vivemos num país em que não se atiram pedras a pessoas que não sejam brancas. Isso não significa que não vivamos num país racista.
De cada vez que alguém se surpreende porque um preto se comporta com bons modos, é racismo.
De cada vez que alguém chama preto a um preto, é racismo.
De cada vez que alguém diz que até tem um amigo preto, é racismo.
De cada vez que alguém se surpreende porque há um preto poliglota, é racismo.
De cada vez que há alguém que diz uma piada racista, é racismo.
De cada vez que alguém se espanta porque um preto é inteligente, é racismo.
De cada vez que alguém tem medo de alguém com quem se cruza na rua só porque não é branco, é racismo.
De cada vez que alguém me diz que não pareço mestiça, é racismo.

E é preciso combatê-lo. É preciso não ficar calado perante ele. É preciso ensinar que é errado. Que não se pode. Que é ridículo. Que é feio.

Da mesma forma, ser anti-racista não é defender apelas o lado africano.
De cada vez que alguém se refere a outro humano como branco, é racismo.
De cada vez que alguém chamar azeitola ou neto do colono a um branco, é racismo.
De cada vez que alguém falar crioulo na presença de quem não perceba a conversa, é racismo.
De cada vez que alguém criticar outra pessoa por ter casado com um pula, é racismo.
De cada vez que alguém parte do princípio que o racismo parte exclusivamente de quem não é negro, é racismo.
De cada vez que alguém agir com desconfiança relativamente a outro por ter um tom de pele diferente, é racismo.

Já fui insultada pelos dois lados que foco aqui e que se esquecem de que não há lados. Somos todos humanos e eu sou a prova viva disso.
Somos todos gente.
Somos todos.

Magoa-me que no MODAAFRICA me tenham perguntado o que raio estava a fazer ali, porque sou branca. Curioso que a directora do evento tenha nascido em Aveiro, seja filha de pais portugueses, tenha pele clara. Como o meu pai, que sempre disse que sabia ser mestiço - alguém vai negar que Portugal foi morada de árabes, visigodos e de tantos outros povos que não cabem na caixinha do ariano?
Magoa-me que em Angola me tenham insultado na rua, que me tenham dito para voltar para a minha terra. Eu estava na minha terra.
Magoa-me que uma fulana me tenha dito que não queria ser parecida com a Mariza, porque ela é preta.
Magoa-me que não saibamos todos que o ser vai além do corpo. 
Que somos todos pó de estrelas, que somos todos alma e espírito para lá do visível.
Que o essencial é invisível aos olhos.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

[ era tudo tão simples, era tudo tão bonito ]

Nina Dobrev
E ontem, ao telemóvel com a minha amiga que menos noção tem do todo maravilhoso que é, senti-me outra vez miúda. Deixámos o presente e viajámos até um tempo que já não existe, só na memória, no peito, na História.

- Eu também adorava fazer as roupinhas para as minhas Barbies com as amostras de collants opacos!

Recordar com pormenor cada detalhe, como se estivesse lá, certas brincadeiras, coisinhas pequeninas que me divertiam tanto. A criatividade que me guiava, uma mente sempre pronta a criar, uma imaginação infinita - tão infinita como os sonhos que sonhava acordada. 
Partilhámos todas as possibilidades que uma caixa de papelão oferecia, todas as bandas desenhadas que líamos repetidamente, rimos com a lembrança dos livros d'Uma Aventura.

- Também achavas as ilustrações horrorosas? Eu tinha a certeza absoluta de que faria melhor! Aquele cabelo das gémeas nunca me convenceu.

E voltei a mim, lá, no meu quarto. O tapete em tons de lilás debaixo dos meus pés, à minha frente a janela de madeira branca, aberta num dia bonito de Primavera, o sol a iluminar o espaço todo, tão grande era aquele meu pedaço de casa. 
Há uma brisa suave que agita as árvores do quintal. Há uma hera mágica a cobrir as pedras do muro do pátio, cada folha tinha poderes mágicos para que quem as segurasse fosse dotado de coragem para alcançar qualquer objectivo. 
Convenci meninas a andar de bicicleta sem rodinhas com esta história. 
Mal sabia eu que iria precisar de folhas de hera todos os dias, que crescer é uma dor imensa e uma coragem hercúlea a cada instante. 

Nas minhas mãos não há verniz nas unhas, estou bronzeada porque passo as tardes a brincar na rua. No pulso, tenho um relógio cor-de-rosa com o Mickey Mouse. Sim, os braços são os ponteiros. Abraço a minha Vó quando quero, ando de ténis, uso o cabelo num ponytail, decido o que quero lanchar sem pesos na consciência. Toco nas sardaniscas que espreitam das fendas dos muros, faço bailarinas com as papoilas que apanho nas bermas dos caminhos e rebolo no chão com a minha cadela. 

Sou feliz. 
Sou feliz todos os dias. Sou feliz quando a minha mãe me vai buscar à escola no Saab bordeaux e me deixa abrir a janela do tecto. Sou feliz quando uso o meu gel de duche da Oilily, depois a loção corporal e o eau de toilette da mesma marca. Sou feliz quando tenho o campo de futebol do cimo da rua vazio, só para mim, e posso andar de patins à vontade. Sou feliz quando mergulho para a cama dos pais, os lençóis verde água parecem uma piscina. Faço parte do clube da Barbie. Tenho um jeito incrível com as raquetes. Não quero sair de dentro de água, estou sempre na piscina. Escrevo muito, invento revistas que construo com folhas agrafadas e marcadores, crio artigos e desenho as roupas e as modelos dos editoriais, onde ficou esse potencial todo? 

Era tudo tão bonito, podia brincar um pouco mais enquanto o pai não chegasse a casa do trabalho para irmos jantar. Ajudo a pôr a mesa enquanto faço rir a Vó e no meu lugar, pouso com vaidade a louça da Turma da Mônica. 
Não quero saber se estou despenteada. Não quero saber das minhas bochechas. Sei que a beleza está em mim, dentro de mim. Sei que vou ter uma vida linda porque não mereço menos que isso. Todos confirmam a minha inteligência acima da média, a minha maturidade, a minha criatividade. 

Toda a gente via. 

Eu vejo, daqui. 

Espero não desiludir aquela miúda tão fofinha como chata, tão ingénua, tão feliz. 

terça-feira, 10 de abril de 2018

sobre viver com dor física

Isto da dor é muito relativo. É difícil medi-la com exactidão, já que a sensibilidade ou a resistência variam de pessoa para pessoa. É daquelas coisas: uma topada no mindinho do pé e parece que a alma me sobe pela garganta... mas removi os dentes do siso sem problemas. Quando me perguntam «de zero a dez, como classificaria determinada dor», penso que esta será possivelmente uma das perguntas mais parvas que se pode colocar a alguém, já que o meu nove na escala da dor pode ser o cinco na escala da dor da minha mãe.

A verdade é que não sou de me queixar e só nas últimas é que me lamento - quando não aguento mesmo mais. Evito medicar-me, acredito que o meu corpo supera tudo. Não gosto de perder tempo com médicos nem com idas a hospitais porque tento sempre que o veterinário que tenho como pai me solucione os problemas de saúde com que vou lidando. 

Aos catorze anos foi-me diagnosticado um tipo de reumatismo. Não fiquei muito chateada, já que a minha avó teve o infortúnio de começar a viver com isto aos dez. Quanto a mim, começou nos membros superiores e durante a faculdade senti-o chegar também aos joelhos. 

Quando me via em pose de Tiranossauro, a tentar retirar os pratos da prateleira para depois os colocar sobre a mesa, o meu pai percebia que estava aflita com dores. Como disse, não sou de me queixar, no entanto, às vezes começo o dia com lágrimas porque a dor que me acorda é insuportável e não consigo esticar os braços. Tenho a sensação de que vou ficar presa na posição em que estou para todo o sempre, que tentar qualquer movimento é excessivamente doloroso.

Lembro-me da primeira vez que percebi que essa dor queria condicionar também as minhas pernas. Estava no cinema, com o meu namorado, quando a meio do filme entrei em pânico. Não conseguia mexer os membros inferiores, uma dor aguda nos joelhos a cada tentativa de o fazer. Já repararam que o ar condicionado está sempre ligado no cinema? Está sempre frio - demasiado, para mim. Ir ver um filme implica estar constantemente a trocar de posição para evitar que esse momento chegue, uma vez que enquanto me mexo, não dói tanto. 

Nas aulas de Educação Física, de que nunca fui fã, os professores não acreditavam em mim. Invariavelmente, julgavam tratar-se de uma desculpa ridícula de uma aluna preguiçosa. Quando conto a alguém que tenho reumatismo, sem entrar em detalhes, ninguém acredita. Por ser detentora de um sentido de humor característico, toda a gente se ri. Aparentemente, sou uma jovem mulher sem dedos deformados, por isso não faz sentido. Mexo-me normalmente, portanto seria absurdo ter reumatismo, essa doença dos velhinhos que não conseguem andar direitos. Como não me queixo, não me lamento e não me vitimizo, não parece nada sério.

Mas é.

Limita-me. 

- E não há tratamento?

Não. Há anti-inflamatórios, que podem amenizar a situação e atrasar a evolução mas não me curam. 
Dói, limita, cansa. A conduzir, na praia, em casa, num restaurante com amigos, no trabalho. Sempre. No frio ou no calor, pode doer. E sabem o que se faz? Nada. Respira-se fundo e continua-se a viver. 

É por viver com isto desde miúda e não me lamuriar que não compreendo bem quando certas doenças que implicam dor crónica se tornam bandeiras e hashtags. Como se houvesse necessidade de dizer ao mundo «hey, tenham peninha de mim que estou aqui com dores». Para quê?

Por falar em dores, parece que agora estou com dor ciática. Estou à espera de vaga no meu osteopata, que isto são dores que não se aguenta e não há comprimido que me ajude nem álcool que me deixe insensível. Algum expert na matéria desse lado? 

segunda-feira, 9 de abril de 2018

A velhice é uma merda.

Não tenho medo nenhum de morrer. Tenho medo de ficar velha.
de olhar para o espelho e não me ver. não me encontrar. só lá no fundo do olhar.

Tenho medo de me cansar da vida e de pedir a Deus, num clamor sofrido, que me leve de uma vez por todas. 

Não gosto de saber que há pessoas que se sentem sozinhas e abandonadas só porque dão trabalho ou porque são cansativas, por se repetirem tanto ou por não se lembrarem do que aconteceu há cinco minutos.

Dói-me na alma. Custa-me. Não gosto da velhice. 

Não gosto da forma como tratamos os nossos velhos. 

Não gosto que sintam que estão à espera de morrer, porque a vida deles já terminou muito antes disso.

A velhice é uma merda.

«Os bons vi sempre passar no mundo graves tormentos»

inveja | s. f.
3ª pess. sing. pres. ind. de invejar
2ª pess. sing. imp. de invejar
in·ve·ja |â| ou |ê| ou |âi| 

(latim invidìa, -ae)
substantivo feminino

1. Desgosto pelo bem alheio.
2. Desejo de possuir o que outro tem, geralmente acompanhado de ódio pelo possuidor.

"inveja", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa


É uma frase que digo com muita frequência: «nunca senti inveja de ninguém». Não faço esta afirmação por ser uma pessoa exemplar - longe disso. A verdade é que sou muito grata por tudo o que tenho, vivo e sou, pelo que não trocaria a minha jornada e existência por nenhuma outra. Além disso, sou tão esquisita com essas histórias da felicidade e das conquistas, que as dos outros não me parecem ideais para mim. 

A noção de sucesso varia de pessoa para pessoa, os desejos que temos são todos diferentes e todos atribuímos mais valor a umas coisas que a outras. Simples. A relação entre a minha amiga e o namorado dela pode ser muito satisfatória para eles mas ao observá-la, há sempre detalhes que não encaixariam na minha vida, na minha personalidade ou nos meus requisitos.
O Lamborghini alheio não me faz comichão, porque não gosto de carros que me façam querer dizer «Kitt, vem-me buscar». E se porventura alguém comprar o carro dos meus sonhos, aviva em mim a esperança de lá chegar também.

Sou, portanto, alguém que nunca sente inveja.

Por natureza, fico genuinamente feliz pelos feitos dos que amo. Quando uma amiga minha conseguiu comprar o seu primeiro automóvel sozinha, chorei com orgulho, como se tivesse sido eu a atingir esse patamar.
O mesmo acontece em todas as outras circunstâncias da vida, aqueles passos naturais na evolução do ser humano numa sociedade organizada. Vivo muito bem com as coisas boas que acontecem a quem está ao meu redor, porque me acrescentam em alegria e motivação: o ordenado maravilhoso, a casa perfeita para quem a vai habitar, o primeiro bebé que vem a caminho. Tudo.

Talvez isso se deva ao facto de ter tudo muito bem arrumado cá dentro. Ser resolvida também é isto: ao saber quem somos e para onde vamos, não queremos experimentar caminhos que não o nosso.

A felicidade dos outros é mesmo dos outros e está cheia de defeitos para mim: não é como quero. Quem pensa assim, não sente inveja, já que tem perfeita noção do que quer da vida.
Como um fato à medida, a tua bênção foi mesmo desenhada para ti e nunca me serviria. Da mesma forma que o contrário também acontece.

Só há um caso em que às vezes sinto que estou quase a ceder à verde tonalidade da inveja. Mas depois de analisar cuidadosamente o que se passa em mim, percebo tratar-se de pura indignação.

Imaginem a pessoa mais insensível, fria, oca, preguiçosa e leviana que conhecem. Agora imaginem que essa pessoa age em constante displicência. Que é irresponsável, imatura e que não é dotada de qualquer autonomia. Que tem uma inteligência mediana e não conta com os valores nem os princípios básicos para ser alguém bom bem vincados na sua fraca personalidade. Que não é uma pessoa que contribua para o bem comum em nenhuma das secções da sua vida - pessoal ou profissional. Imaginaram?
Agora imaginem que apesar de tudo isso, de não ser alguém educado, de trato agradável e interessante, essa pessoa recebe o que quer. Sempre.
Imaginem que não merecendo, recebe um ordenado muito acima da média, tem o carro que lhe apetece, a casa com que sonhou, os problemas todos resolvidos por outros.
Mais um pouco de imaginação: faz de conta que essa pessoa não só não valoriza tudo isso, como está constantemente a estragar o que lhe caiu no colo porque se está nas tintas para o que de graça lhe foi dado, por isso não estima nada (nem bens, nem pessoas, nem nada)... e que mesmo assim, se safa sempre. 
É rude, é malcriado e mesmo assim continua a receber em abundância tudo o que toma por garantido.

Isso indigna-me. Mexe comigo. Arde-me no peito. Irrita-me solenemente.
E dou por mim a censurar-me, ordenando-me que nem ouse invejar, que isso não é sentimento para caber aqui dentro - e ao olhar com atenção, não há nada disso. Há indignação, por saber que há quem mereça, quem se esforce, quem valorize o pouco que tem e não consiga passar da cepa torta. 

Olho para aqueles putos, ambos a ganhar o ordenado mínimo, felizes com a casa da porteira que conseguiram finalmente arrendar, a escolherem não arriscar já num carro. 
Olho para os outros, sem estabilidade financeira para poderem investir nos seus sonhos, a ir religiosamente para o trabalho todas as madrugadas. 
Olho para aquela, há trinta anos fiel e competente no mesmo emprego, sem ser aumentada há dez. 
Olho para os homens do lixo, sem os quais seríamos condenados a viver na trampa e expostos à propagação de epidemias graves e perigosas, a fazer aquele trabalho tão duro, durante a noite, ao frio, por tão pouco.
Olho para tudo isso e não entendo.
Porque não é justo.
Não é inveja. É indignação. E despeito.

Já dizia Camões:
«Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que só para mim
Anda o mundo concertado.»

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Uma pergunta que anda aqui a mexer comigo...

Vale a pena ser boa pessoa?

Terceira dose de pérolas do ano!

Meus queridos, eis aqui mais uma ode à ignorância e ao desrespeito pela nossa Pátria, que é a nossa Língua Portuguesa. É a terceira dose de erros ridículos do ano, que já não vos dava disto desde Fevereiro.

solidariezaram
Eu é que não me solidariezo com quem escreve assim. 

trabalho muito ardo
É aquele tipo de trabalho que aquece como fogo. Por norma, usa-se a expressão «trabalho ardo» quando nos queremos referir ao enorme esforço físico necessário para concluir determinada tarefa.

caucau
As migas que querem ser fofitas e falar à bebé para o seu mor não pedem um cacau quentinho. Pedem um caucau. Ou um caucauzinho quentinho. 

frustado
Frustada fico eu com a propagação de estupidez nas redes sociais.

centimentos
Toda a gente os tem.

destiguir
Quando temos o nariz muitíssimo entupido e queremos dizer as palavras bem ditas, mas sai-nos disto. Quem nunca? Quando a constipação é forte, chega até aos dedos e a escrita fica afectada também.

presedende
Este também devia estar com uma constipação como o anterior. Bem grave. Ou altamente embriagado. Ninguém pode escrever presidente assim e estar sóbrio ou bem de saúde.

cidadoes
Esta é velha, bem sei. Mas é exactamente por isso que não se justifica que alguém ainda escreva isto.

que a vida lhe surria sempre
Ficamos na dúvida, aqui. Será que ele espera mesmo que a vida lhe sorria? Para os mais perspicazes, poderá claramente tratar-se da expressão de um desejo por parte de um grandessíssimo sonso: na verdade, quem diz isto espera que a vida surre com toda a força o receptor da mensagem. Como é sorrateiro, diz «surria» só para que o outro não compreenda a verdadeira intenção da mensagem, que é a vontade de que o outro seja açoitado pela vida. Deste modo, assegura a sua boa reputação (ah e tal, aquele gajo só me deseja bem, é um bacano) e não dá cabo da relação.

eu não me prenúncio
É como diz o outro: «prognósticos, só no final do jogo!».

frambroesa
Parece a língua dos Pês mas com Erres. FramBroEsra seria mais correcto. Ou FramRamBoRoEReSaRa. Whatever, sempre fiquei cansada com esses jogos.

cuidado para não te chujares
É o que dá escrever enquanto se mastiga.

derejido
Este post é derejido a todo o energúmeno que queira constatar comigo a sua falta de noção por escrever assim em público.

colobradores
Ora cá está um excelente exemplo de Português de Fusão! Cobradores que dão colo. É um serviço bom para o caloteiro chorão.

creatividade
Eu sou uma pessoa tão creativa que invento palavras. É.

apromadinha
Ela é PRO em parecer apruamada. Dez minutos e está com bom ar. Sim, sim, Português de Fusão.

por um estante só queria um abraço teu
Isto até é triste, bem sei. Mas quero lá saber. Além de foleiro, confundir um pequeno espaço temporal com mobília é demasiado. Mais valia não expressar centimentos, como dizia o outro ali em cima.

alguém advinha onde estou
É confundir a beira da estrada com a Estrada da Beira. O verbo advir com o verbo adivinhar. É uma salganhada, é o que é.

empavidas e serenas
O que são empavidas? Empadas com bichos vivos lá dentro? Empatias que não estão mortas? Empalhamentos de seres vivos?  Socorro.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

a vida é como um jogo de Trivial Pursuit

é um trabalho diário. 
para nos mantermos no centro, temos que nos lembrar disso todos os dias. como os nossos pais nos ensinaram pacientemente a lavar os dentes e tivemos que ser lembrados de que é necessário fazê-lo até que se tornasse num gesto automático, num passo óbvio na nossa rotina diária. assim é com as nossas prioridades: é imperativo recordar constantemente de quem deve estar no centro delas. não pode ser o trabalho, não pode ser o namorado, a relação, o filho, não podem ser os amigos. mesmo que pareça altruísmo, amor, brio profissional. mesmo que pareça justo, bom ou nobre. mesmo que pareça correcto sair do trono para o ceder a outro, não é. 
a primeira de todas as consequências será o desequilíbrio. de dentro para fora, do nosso interior para o que nos é externo. ao perder o norte, deixaremos cair todos os outros elementos importantes da nossa vida. ao priorizar o meu namorado, coloco-me abaixo dele e dou-lhe espaço para que me tome como garantida, agindo em conformidade. ao elevar o trabalho sobre todas as coisas, deixo de estar presente para as minhas pessoas e afasto-me da vida. 
conheço alguém que me disse que a vida é como um jogo de Trivial Pursuit: temos de ter os vários queijinhos. eu acrescento que temos de estar no centro deles, zelar por nós, pelo nosso bem-estar, respeitar as nossas vontades, mimar quem somos, abrir a janela e deixar a luz entrar, sorrir, gastar tempo fazendo o que gostamos. 
o resto acabará por fluir como é devido.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Aquela minha rubrica no Pombal Jornal...

...hoje fala sobre uma tendência enooooorme desta Primavera. Passem por lá!

sonho tanto contigo.

hoje sonhei contigo. a tua avó tinha morrido e eu não sabia se me querias ali ou não. estava lá na mesma, porque parece que é assim que as coisas funcionam: estás cá na mesma, mesmo que não queiras. e eu aí na mesma, mesmo que não queiras. acordei angustiada, noutra altura ter-te-ia telefonado imediatamente, queria lá saber o que estavas a fazer, se estavas a trabalhar, quem tinhas ao teu lado. já não é assim, então guardam-se estas coisas, não se partilham, não me alivias dizendo que está tudo bem. só sabemos quem fomos, não sabemos mais nada. e hoje sei que não o fiz sozinha, nem tu. estas coisas acontecem, é a vida, é assim que se cresce e avança neste caminho em que nos puseram. nestes caminhos, que cada um tem o seu e são todos isolados uns dos outros, nós é que nos enganamos quando sentimos alguém muito próximo, muito perto, muito chegado. depois, quando achamos que nunca nos vamos afastar, o caminho de cada um segue uma direcção diferente e crescemos para lados opostos. tão opostos que já nem nos vemos, não ouvimos nada do que o outro diz, está tão longe, parece que vive noutro mundo. vive mesmo. não é no nosso. mas há pedaços de ti que ficaram para sempre a morar em mim e pedaços de mim que ficarão para sempre com morada em ti. são trocas que vamos fazendo até não haver mais nada para trocar. dizem que quando deixamos de contribuir para o crescimento de alguém, a Vida separa os corações. dizem também que é um processo tão natural que devemos aceitá-lo com naturalidade para não doer. não podemos ficar agarrados ao passado, não é? e é isso que somos. passado. 
mas não deixo de sonhar contigo, de sentir medo que alguma coisa de mal te aconteça e não te possa dar a mão e dizer que faço o que for preciso para que te sintas melhor. a amizade é mesmo mais nobre que o amor. e mesmo que não tenha a tua, a verdade é que tens a minha aqui, intacta.  







segunda-feira, 26 de março de 2018

aquelas coisas mega baratinhas que dão um jeito descomunal

Quem me segue por aqui sabe que sou ligeiramente obcecada pelo meu cabelo. Adoro usá-lo comprido, não abro mão do volume mas não suporto cabelos longos e mal tratados. É por esse motivo que aposto tanto na nutrição.

Uma das minhas mais recentes aquisições foi uma touca térmica, que uso para fazer hidratações em casa. Habitualmente, colocava os meus produtos (ampolas, óleos ou máscaras intensivas) e usava papel de alumínio para o mesmo efeito, mas o conforto é inigualável.

Estou fã e divirto-me só por me ver ao espelho!

sexta-feira, 23 de março de 2018

[ d e s g a s t e ]

Amanda Seyfried
e de repente, o primeiro trimestre do ano já foi. Janeiro, Fevereiro e Março a terminar. E nesta semana em que finalmente chegou a Primavera, senti que tinha vivido duas. Como se fosse possível ter dez dias entre Domingo e o Sábado seguinte. 

A impaciência, o cansaço, o desgaste. 

É sempre mais fácil lidar com o corpo que quer repousar do que com a mente que nunca sossega.

Senti todos os dias que queria ir fazer uma massagem, adormecer e ficar lá até que tudo se resolvesse, num sono profundo que parasse o tempo para mim. Era o que me faria feliz.

Estou cansada de tomar decisões, de projectar o futuro e de não estar naquele momento lá à frente, em que está tudo pronto, a máquina a trabalhar, os frutos prontos para colher.

Estou cansada.

quinta-feira, 22 de março de 2018

nasci assim, mas

ninguém me avisou que ser empreendedor dava tanto trabalho.

ninguém me disse que me irritaria tanto com a estupidez humana.

que me tornaria nesta pessoa que não fala dos seus projectos a ninguém, porque o segredo é mesmo a alma do negócio.

que era tão difícil ser mulher numa realidade em que a segregação por género existe.

que sempre que decido avançar sem querer recorrer ao meu pai, há mais obstáculos.

que a falta de inteligência dos outros dificulta tanto que sejam dados passos pequenos.

que aparentar juventude faria com que uma funcionária de um banco me atendesse de cócoras, perante o olhar incrédulo de uma colega.

que teria gente pouco inteligente a achar-se mais que eu.

que às vezes as oportunidades surgem sem que as procuremos.

que antes de começar a trabalhar e a facturar, há tantas despesas.

que é tão mais fácil ser apenas empregado de alguém.

que sentimos tantas vezes o peso do mundo sobre os nossos ombros.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Nunca me soube gabar

Nunca me soube gabar. Nunca falei muito sobre a média alta com que entrei em Jornalismo na Faculdade de letras da Universidade de Coimbra. Não andei a gritar aos sete ventos que acabei o meu estágio profissional (que nunca perdi tempo com curriculares) com excelente nota. 
Não o faço porque não são os números altos que me definem.
Valeu mais o doze com que saí da minha primeira e única oral, de que dependia para terminar o curso, que os redondos dezoitos que pautaram o meu percurso académico. Quando terminei a especialização em Consultoria de Imagem com um desses, houve em mim apenas a sensação de dever cumprido. 
Os números não me impressionam. 
O que me deslumbra é o legado. 
O que fazemos e o que vamos deixando.

Olhando à volta, tenho a sensação de que esta humildade é nociva, porque cai facilmente na desvalorização dos meus feitos. Uma vez que fiz muito menos voluntariado do que gostaria e que não sou dada às ciências exactas, pelo que não fiz nenhuma descoberta significativa que alterasse significativamente a vida de alguém, tenho os meus feitos como normais. E não são. Grandes ou pequenos, são os meus. E são bons. São maravilhosos. Só tenho motivos para me orgulhar de mim.


Primeiro, porque nunca recorri a padrinhos nem cunhas e nunca pedi favores. Fiz tudo sozinha, sempre com o apoio da minha família, mas sozinha. Tomei decisões com base na possível consciência das suas consequências, corri riscos e obtive resultados sempre acima do mediano. 


Segundo, porque segundo esse poeta dos tempos modernos de seu nome Virgul, "quem muito fala, muito pouco faz". E se não me vangloriei nem pedi aplausos, foi porque estive ocupada a fazer acontecer. Não preciso que me passem a mão no pêlo e me digam que fui uma linda menina. Se me esforço, se trabalho, se tenho sucesso nos meus investimentos, fico grata a Deus pelas oportunidades que me dá e sigo caminhando. Não espero o louvor de ninguém, foi assim que me educaram - para fazer uso das minhas capacidades e talentos em prol da minha satisfação pessoal e do bem comum, porque é o mínimo que podemos fazer e não há nada de extraordinário nisso. 


No entanto, sei que o facto de não apregoar por aí o trabalho que tenho, os esforços que faço e quão bem-sucedida sou também tem as suas desvantagens. O mundo ama dois tipos de pessoas: os falsos e as vítimas; e eu não me encaixo em nenhum dos grupos. Não digo que faço e aconteço para depois ter um currículo cheio de palestras dadas mas sem experiência nenhuma de terreno. Também não sirvo para o papel da coitadinha que é uma trabalhadora incansável e mal tem tempo para admirar a beleza do céu.


Sou assim, sei lá, não gosto de me lamentar nem de puxar dos galões. 

Mas e o gozo que me deu encontrar por mero acaso o meu nome numa publicação dessa que foi a minha casa durante tempos tão felizes? Ser parte da história de uma instituição que amo, respeito e admiro, depois de ter sido aluna, foi motivo de orgulho. É motivo de orgulho. E ali está o meu nome, entre outros com backgrounds mais sonantes, como a Visão ou o Público, humildemente imprimido com a ausência de um L, na Vida da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra durante o ano lectivo de 2016/2017.

Há coisas boas. Esta é uma delas. 
E ninguém ma tira.

quarta-feira, 14 de março de 2018

modas.

Angelina Jolie
Este post da Imperatriz diz tudo. Não me parece nada lógico que tenha de esgadanhar-me para encontrar algo que me desperte aquele feeling cá dentro, aquele que nasce quando vemos uma obra de arte. Salvo raras excepções - Storytailors, Filipe Faísca ou David Ferreira - não há muitos motivos para que deseje estar na front row das corridas do Eça.

terça-feira, 13 de março de 2018

A ética e a deontologia ficaram em casa.

Em casa ou no lixo. 

Assim de uma maneira muito simples para facilitar a compreensão de algum ignorante que por acaso venha a ler este post, vou ter cuidado com as palavras que escolho e simplificar ao máximo. 

O que se passa é o seguinte: é por causa de casos como este que a imagem ilustra que quando ainda era aluna do curso de Jornalismo, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, morria de vergonha na cadeira de Ética e Deontologia. A maioria dos casos apresentados como exemplo do que não deveríamos fazer vinham sempre de órgãos de Comunicação Social de Pombal ou de Leiria. Eram uma fonte tão rica de erros deste género, que o professor da disciplina em questão nem tinha que se esforçar muito para os encontrar. É por causa de casos como este que entre alunos era comum ridicularizar os órgãos regionais, onde mais tarde vim orgulhosamente a trabalhar. 

Esta notícia tem um título despudoradamente racista. E envergonha-me. Como pessoa formada em Jornalismo, como leitora e acima de tudo, como humana. 


É simples e claro. Não é preciso ser um génio para perceber nem é preciso ter um Q.I. acima da média para ler ali, naquele título, preconceito. Racismo. Daquele tão tipicamente português, disfarçado com um elogio. Como quem diz "que amorosos, os ciganos. Ofereceram cabazes a quem precisava". Como quem quer sublinhar que afinal eles não são só os subsídios e os maus modos. Como quem quer mostrar que eles não são só os putos com navalhas que roubam os meninos brancos na escola. Como quando se enaltece o preto que até é inteligente, vejam lá! Como se fosse surpreendente observar algo normal, bom ou nobre em alguém cuja tez não é clara. Como se a quantidade de melanina na pele dissesse alguma coisa sobre o ser que está debaixo dela.

E porque é que o Jornalista (com J maiúsculo) tem responsabilidades acrescidas neste campo? Porque o seu trabalho é serviço público. Não interessa quem é a sua entidade patronal: o seu dever é informar de forma isenta, séria e livre de discriminação. 

Cabe-lhe incutir na sociedade, através do produto do seu trabalho, noções básicas pelas quais se deve reger. E aqui, no caso que a imagem demonstra, houve alguém que não merece ser designado como Jornalista, que despoletou com este título comentários como "eu até conheço ciganos que são boas pessoas". 

Se fosse um grupo de pessoas brancas, filhos de brancos, de classe média, com licenciaturas e empregos das nove às cinco, como seria o título desta notícia?

E se vierem comentar este post para me dizer que não, que o nosso país não é racista, então leiam isto primeiro. Depois falamos.

Apesar de tudo

Kate Upton
Apesar de tudo.

Se tudo for o facto de não me teres ouvido.
De teres preferido acreditar no que aqueles que nunca me conheceram como tu te disseram sobre mim.
De teres entrado num jogo baixo e pequenino, de intrigas e mentiras sobre alguém que fingiste não saber quem era.


Apesar de tudo.
Se tudo for o desrespeito fácil, a leviandade com que falaste com outros sobre coisas que não diziam respeito a ninguém.
Se for reduzires-te ao grupo de pessoas que ele aprova.


Apesar de tudo, apesar disso tudo, continuo a desejar-te o melhor.
Apesar de tudo, deves saber que sabia disso antes mesmo de ti.
Apesar de tudo, deves saber que não sinto a tua falta todos os dias.
Apesar de tudo, ainda me custa.
Apesar de tudo, de toda a injustiça e desconsideração.
Apesar de tudo, hoje sonhei contigo.
E eras tu mesmo. 
Como eras antes.

sexta-feira, 9 de março de 2018

do c a n s a ç o dos dias longos

Gigi Hadid
semanas difíceis, cansativas, maçudas.
semanas que custam a passar e deixam rasto.
semanas em que tudo acontece.

- o vento que leva a porta do carro e faz com que bata na porta de outro e o estrague.
- o telemóvel que está no bolso do casaco comprido e que por ficar entalado entre mim e a porta, parte a coluna de som.
- a chuva que começa a incomodar demasiado e a meter-se onde não devia.
- aquele quase acidente no trânsito.
- as pessoas que parecem estar todas sem noção.

acabou. não penso mais nisto.
é fim-de-semana. 
vou repor energias.
vou deixar entrar luz para voltar a espalhá-la.

fragmentos de férias nos meus dias

Amber Rose
Mas e o bom que é tirar tempo para mim? Pode ser uma pedicure, pode ser aquela meia hora em que estou deitadinha na cama enquanto ouço música e deixo a minha máscara facial actuar, pode ser um brushing rápido no cabeleireiro, pode ser uma massagem, pode ser pintar as unhas enquanto ponho as séries em dia. Num dia mesmo bom, podem ser aquelas duas horas em que me dedico à juba: primeiro, fazer aquela hidratação maravilhosa e colocar uma touca térmica; depois, lavá-la com carinho e nutri-la com uma boa máscara; por fim, secá-la com delicadeza, com calma, sem pressas. 
Adoro cuidar de mim e estou convicta de que esses minutos, esses pedacinhos de tempo em que me dedico exclusivamente ao meu bem-estar, me ajudam muito por dentro. 
Tanto. 
São fragmentos de férias nos meus dias. 

quinta-feira, 8 de março de 2018

[ tantas vidas numa só ]

Kate Hudson
Estas memórias que o Facebook aviva são como os fios de luz que me entram pela janela do quarto pela manhã. Despertam-me, fazem-me revisitar outras vidas, tantas vidas vivemos numa só.
São muitos os retratos de felicidade pura, dessa meta inatingível e imensurável que dá o mote para a incessante busca que caracteriza a jornada dos sonhadores. Alguém que admiro fez-me notar que só nos apercebemos desses fragmentos intocáveis após a sua passagem por nós. E é verdade. É depois de sermos felizes que reparamos no tanto de felizes que fomos.
Essas reminiscências de sorrisos, de gargalhadas que nascem lá no fundo do ser para depois explodir em alegria sonora, são irrepetíveis, mas ecoam cá dentro, volta e meia, entre as brumas da lembrança, servindo de adubo à esperança que vai germinando.
Não vou voltar àqueles lugares, não vou ser aquela miúda outra vez, não vou regressar ao vivido. No entanto, sabe bem contar quantas vidas experienciei e no final das contas, noves fora nada, gosto mesmo é do presente.

terça-feira, 6 de março de 2018

nos dias em que a força se gastou ontem.

Nicole Richie
Às vezes é difícil manter o foco. É difícil manter a calma e a sensatez no lugar. No meio da feira de vaidades em que vivemos, é difícil manter viva a convicção de que estamos no sítio certo quando não queremos saber das aparências, das opiniões alheias, das vidas dos outros. 

Ser único e aceitar esse facto com respeito e amor por quem somos não é tarefa simples. Volta e meia, há algo que vem perturbar-nos a paz e fazer-nos crer que o nosso caminho não é o certo. Como se existisse um único. Que o nosso caminho não é tão bom como os outros. Como se a comparação fosse uma possibilidade. Que o nosso caminho não faz sentido. Como se isso fizesse sentido. Que não fazemos tanto como poderíamos fazer. Como se de algo mensurável se tratasse. Que não somos tanto como deveríamos ser. Como se alguém tivesse o dom de o saber.

E como é difícil não sucumbir à tentação de ser igual aos outros todos, nos dias em que a força se gastou ontem. De ser vítima, para granjear pena e simpatia. De ser exibicionista, para iludir todos os seguidores. De ser mentirosa, para agradar a todos. De ser fútil, para parecer mais. De não ser eu, para me parecer com todos.

Mas não estou sozinha nisto. Somos muitos. E eu acredito na selecção natural.
Mais que fingir, ser. 
Mais que parecer, ser. 
Mais que almejar, lutar.
Mais que imitar, criar. 

segunda-feira, 5 de março de 2018

Quem diria que um crocodilo poderia ser tão simpático?

Que a Lacoste é um exemplo na arte de se reinventar, não é novidade para ninguém. Desde as parcerias com designers para recriar os seus clássicos às campanhas sporty chic com alusões à sua génese mas carregadas de modernidade, muitas são as evidências desse percurso.

Esta ideia, tão simples e genial, vem revelar isso mesmo: que a Lacoste continua cá para as curvas. Mestre na arte de se manter fiel a si mesma sem perder de vista o mundo dos nossos dias e o futuro, a marca celebrou uma louvável parceria com a União Internacional para a Conservação da Natureza, o que me deixa ainda mais apaixonada. 

Trata-se de uma colecção de pólos em que o famoso crocodilo cede o seu lugar a dez outras espécies em perigo de extinção. A edição é tão limitada quanto as espécies representadas e será apresentada esta semana, em Paris.

Este não é um post patrocinado. Estou mesmo fã da iniciativa.

sexta-feira, 2 de março de 2018

o tempo não esquece

Maryna Linchuk
Há tão poucas pessoas que ouçam.

Há tão pouca gente que escute.

Há conversas que não o são, porque não são trocas de informação. Não há papéis de emissor e receptor, há apenas emissores. Duas pessoas que atiram frases uma para a outra. Não há diálogo.

Pensava nisto recentemente, a propósito de alguns assuntos que tentei esclarecer com quem de direito, sem grande sucesso. Sem sucesso nenhum, para ser franca. Foram espaços de tempo que ocupei com palavras ditas, em que cansei a minha voz sem que fosse ouvida. Disse tudo sem que a mensagem chegasse ao lado de lá. E depois de tentar esclarecer mal-entendidos, vim-me embora com a certeza de que não tinham sido clarificados. Soube que tínhamos debitado informação mas que ela tinha ficado ali, a pairar, sem que fosse absorvida, mastigada, pensada, retida. 

Em prol da boa convivência, de uma paz podre que se vai mantendo sem que se saiba porquê, passa-se à frente, cada um com a sua ideia de como as coisas aconteceram, sem querer saber da verdade do outro.

Isso deixa-me o sabor a insuficiência na boca. Não me chega. Não fui ouvida, não acreditaram em mim nem quiseram saber o que pensei, o que senti, o que me levou a agir de determinado modo. 

O tempo não apaga. Afasta, mas não apaga.

O tempo não esquece. 

quinta-feira, 1 de março de 2018

quando o dia chega

sabias que ia chegar, esse dia.
quando chega, gelas.
sentes-te tremer por dentro.
sinto os lábios dormentes.
o olhar fixo.
um frio terrível.
ignoras.
continuas agarrada ao computador, a fazer o que tens que fazer.
«depois penso nisto»
não falas.
não dizes nada.
muda.
quieta.
calada.
sabias que ia chegar, este dia.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

pequenos detalhes, grandes revelações

Julianne Moore
dói-me o olhar condescendente com que quem se conforma à mediocridade olha para os que vivem fora das zonas de conforto estabelecidas como razoáveis. 
dói-me, fere-me. 
agride-me. 
entristece-me. 
indigna-me. 
quem nunca quis voar, ri-se das asas abertas de quem se aventura pelo céu. 
quem não ouve a música, não percebe a dança de quem a ouve e sente. 
irrita-me quem se julga maior virado para as paredes no seu ínfimo e insignificante cantinho pequenino. 
magoa-me o julgamento vindo de quem não é recto na sua conduta. 
faz-me ferver a ousadia de quem não sabe qual o seu lugar. 

é fácil apontar o dedo a quem vive sem querer saber dos padrões instituídos. é tarefa simples inferiorizar quem não se submete às regras, porque não se sabe viver fora delas e tudo o que está para lá do conhecido parece mais pequeno, por estar mais longe. 
mais alto. 
mais acima.
mais elevado.
maior, na verdade.

é estranho: não sou dessas que vive certinho, não gosto disso nem quero isso e nunca inferiorizei ninguém por preferir viver certinho. porque respeito a liberdade de escolha de cada um. 
quando gostamos, respeitamos. 
quando amamos, respeitamos. 
quando queremos bem, respeitamos. 
mesmo que discordemos. 
mesmo que não compreendamos. 

talvez seja inveja da coragem. dar o salto não é para qualquer um. 
talvez seja inveja da ausência de pena no olhar alheio sobre aqueles que ousam voar. viver de piedade representa menos esforço. 
talvez seja ignorância.

sei que em cada suave comparação há ataque.

sei que em cada mínimo laivo de condescendência se revela algo maior. 
sei que em cada leve olhar de condescendência se revela algo maior.

não sei se quero descobrir o que é.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

[ h e l i o f i l i a ]

Sou só eu que quando acordo e vejo um céu cinzento me sinto meio perdida? Não percebo que horas são, em que dia estamos, o que devo fazer. Não me apetece levar a cabo as tarefas que adoro - fazer o pequeno-almoço bom, adiantar o meu almoço, tratar da roupa cá de casa, sair para reuniões à tarde, tomar café com uma amiga, tratar das análises que tenho para fazer, organizar papeladas. 
É como se esta ausência de luz me transformasse num ser sem motivação. Como se fosse movida a energia solar. Não tenho vontade de me embonecar, não quero sair das minhas camisolas de malha, não tenho paciência para outra coisa que não seja ficar sossegada em casa, a trabalhar no meu computador ou a ler. Melhor: só me apetece ficar a ver séries enrolada numa mantinha. Sou viciada em vitamina D e o meu organismo mirra sem ela.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Segunda dose de pérolas do ano!

Aí estão elas! São em menor número do que tem sido habitual porque tenho trabalhado menos com redes sociais e por esse motivo, não passo tanto tempo nessa actividade física exigente que é o scrolling. No entanto, posso adiantar-vos e garantir-vos que a qualidade não fica atrás do que vos costumo trazer.

madeichas
Ela queria mudar, estava farta de ser igual a toda a gente. Foi por isso que decidiu dar tudo e arriscar numas com CH, que o X está muito visto.

prespectiva 
Voltamos ao Português de fusão: uma antevisão tida através de um determinado ângulo é uma prespectiva. Devíamos era usar um acento, talvez, só para garantir que a coisa faz mesmo sentido: préspectiva. 

ruida de inveja 
É como eu fico quando vejo gente a escrever assim tão bem. Ruidinha. Mas sem a parte da inveja.

recoperar
Será também este um termo fruto do Português de fusão? Quem reincide na cooperação perde um «o» e ganha o prefixo «re»?

apartamento para arrendar sem calção 
Oh diacho! De cueca? Ou não há cá perninhas à mostra e só se arrenda a quem veste ceroulas? Senhoras também só podem arrendar se vestirem calças? CALÇÃO, senhores? Nem que fosse por uma questão lógica, recorria-se ao Google para perceber se queremos falar de uma peça de vestuário ou de uma garantia financeira. Este erro diz imenso sobre o Q.I. de quem o cometeu. 

tijela
Falamos de um recipiente côncavo que faz parte do quotidiano de todo e qualquer português desde que nasceu. É algo que usamos diariamente para vários fins e que é escrito com uma letra que aprendemos a distinguir do «J» ainda na Escola Primária. Porque raio é que me apareceu isto escrito assim? Depois eu é que tenho mau feitio e julgo as pessoas. Claro. 

nood
Esta veio de uma pessôa daquélas qué supéféxôn. Daquélas cadooora dar uma de que sabe imenso de moda, sabem? Então não é que a moça aconselhou esta cor? NOOD? Isto só seria aceitável se tivesse sido um adolescente norte-americano a expressar o seu contentamento face à recepção de uma nude por parte da namorada. Uma fulana daquelas a armar ao phyno não tem margem para slang. Ela não sabia efectivamente escrever nude, um estrangeirismo que é também uma denominação erradamente atribuída ao bege, que significa apenas cor da pele nua - nude. N-U-D-E.

preso bastante o trabalho deles
Mas tem que ser bem preso, não queremos o trabalho deles à solta, espalhado por aí!

extenção
É o que é. Iço. 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Lady Lamp fica fit (sqn) - #8


E o oitavo post desta saga é também o primeiro que vos escrevo sobre o tema em 2018. 


Se Janeiro foi o mês do detox, como vos disse, em que me obriguei a ser realmente rígida relativamente às minhas escolhas alimentares para minimizar os estragos de Dezembro (que não foram assim tantos), Fevereiro tem sido o mês em que o verbo obrigar não cabe. A verdade é que não me apetece comida pesada nem altamente calórica e tenho seguido o meu plano com alguma criatividade. 

Almoços que são saladas maravilhosas, jantares que são sopas simples e deliciosas e por vezes, pequenos-almoços em forma de french toast light. Tudo saboroso, leve e magro.


Todo este processo tem sido partilhado nas minhas InstaStories, em @anarendalltomaz , o que serve tanto para vos inspirar como para me comprometer a ser fiel.


Continuo sem optar por massas, batata ou arroz e não tenho sentido falta, já que compenso através da ingestão de fruta, frutos secos e, de vez em quando, tostas integrais ou fatias de pão escuro (só antes das seis da tarde).

Nem nas sopas existem vestígios de batata. Ultimamente, ando viciada num creme básico que faço só com cenoura e alho francês, contudo, há dias em que escolho experimentar outras receitas e substituo a batata por courgette, por exemplo. 

Depois da sopa, faço questão de comer um queijo fresco e uma ou duas bolachas de água e sal, só para fechar a refeição sentindo que trinquei alguma coisa.

Outro truque que tem sido muito útil para que beber água não seja uma chatice consiste em ter sempre um jarro com água aromatizada no frigorífico: às vezes com frutos vermelhos, outras vezes com pedaços de limão e hortelã. Só desta forma consigo beber toda a quantidade que devo.


Para as preguiçosas como eu, ter a fruta sempre preparada no frigorífico também é uma ajuda preciosa. Por exemplo, corto o abacaxi em pedaços e coloco-o num tupperware para que não pareça uma árdua tarefa a executar de cada vez que me apeteça fruta.

Gosto muito de comer saudável mas não consigo abdicar do sabor e preciso mesmo de variar, por isso estou sempre a inventar novas formas de comer pratos de que goste usando alternativas com poucas calorias. 


Há algum tempo, senti um desejo enorme de jantar pimentos recheados, então criei uma versão diet.
Fiz o recheio com pimento e cebola picados, muito tomate em cubos, azeitonas laminadas e uni com ricotta. Polvilhei com queijo ralado só para me dar uma pontinha daquela satisfação que só os gratinados conseguem dar. Depois de algum tempo no forno, retirei e confesso que não me apeteceu fazer qualquer tipo de acompanhamento. Estava óptimo e vou experimentar em breve algo do género com sangacho de atum ou cavala à mistura.


Quanto ao chá de cavalinha, foi meu companheiro durante uma semana em Janeiro e só voltei a tomar desde a última segunda-feira até hoje. 


Se tenho sentido diferenças no meu corpo? Claro! Sinto-me sempre mais leve quando tenho cuidado com a minha alimentação. A minha pele e o meu cabelo dão imediatamente sinais de que algo não está bem quando decido sair dos trilhos, pelo que até a vaidade ajuda a que queira manter-me neste regime. 
Noto-me também menos sonolenta durante a manhã e nas raras ocasiões em que vou jantar a casa de um amigo e decido ignorar as minhas regras, acabo por me arrepender: fico imediatamente a sentir-me inchadona e enfartada durante muitas horas.

O melhor de tudo é quando alguém passa quinze dias sem nos ver e diz-nos, assim que nos encontramos: estás com menos bochechas! E ao abraçar-nos, exclama: estás muito mais magra, mesmo com estes casacos todos! 



#ladylampficafit
#sqn

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Mas a UTERQÜE, senhores...

...a UTERQÜE deixa-me fora de mim.

SONHO com estes brincos maravilhosos!
MORRO por estes sapatinhos.
PRECISO destes peixes nas minhas orelhas.
NÃO VIVO SEM estas sandálias.
QUERO MUITO este colar.
AMO este top com esta saia.
APAIXONEI-ME por estas conchas.
FAZ-ME FALTA esta T-shirt.
ADORO esta lagartixa.
NÂO AGUENTO ficar só com os cereja.