quinta-feira, 24 de maio de 2018

Tudo muda. E que bom.

Gosto muito das memórias do Facebook. Gosto de, a meio do dia, perceber o que publiquei nos últimos anos, recordar onde estava, como me sentia, o que fazia dos meus dias.

Hoje, houve uma que me tocou profundamente. Ao que parece, em 2010 escrevi um post bem curto que dizia apenas «descobri a minha vocação outra vez: personal shopper. e era feliz».

Primeiro, adorei perceber que tenho razão e que escrever em algum sítio os nossos sonhos ajuda muito a que se concretizem.
Faço-o desde miúda: descrevo bem o meu objectivo e dobro a folha para depois a esconder - numa gaveta, por detrás da fotografia de uma moldura, numa caixa, não interessa. É um daqueles hábitos estranhos que ninguém nos ensinou mas que fazemos por instinto. 


Em segundo, foi surpreendente perceber que vivo o que um dia não passou de uma graça, uma piada, uma remota hipótese. Em 2010 trabalhava como jornalista e não tencionava mudar de profissão. A minha vida na altura era imensamente diferente daquela que vivo hoje e não imaginava vir aqui parar. O meu mundo evoluiu, cresceu, tornou-se mais livre.

É esta perspectiva que tento transmitir sempre que alguém me procura em desespero, lavado em lágrimas e embebido em preocupação com algum acontecimento importante: a vida muda. A vida transforma-se e transforma-nos. Não ficamos estagnados para sempre, não há como. Não congelamos num momento, numa fase. Não fiquei estudante de Coimbra até agora, aflita com as cadeiras para fazer. Não fiquei noiva para sempre, entusiasmada com a lista de afazeres inerente ao casamento. Não fiquei jornalista na imprensa regional para sempre, pulando de Assembleia Municipal em inaugurações de obras públicas ao longo de cada edição. Não continuei a viver na mesma casa nem a conduzir o mesmo carro, não mantive o mesmo corte de cabelo, o mesmo dia-a-dia ou os mesmos amigos à volta da mesa. 

Tudo muda e isso é bom, principalmente porque não vale só para o lado negativo. A vida também muda para melhor.

Por vezes não conseguimos perceber, dia após dia, semana após semana, que alterações se deram no nosso percurso. Mas à distância, elas estão lá e acumulam-se, virando o cenário do avesso. Crescer também é saber disso e não deixar esse conhecimento esquecido quando os dias não se revelam animadores.

Em terceiro e último lugar, ter lido hoje aquela frase que escrevi há oito anos mexeu comigo por sentir que nunca será suficiente o agradecimento a Deus por tudo o que vai fazendo na minha vida. Foi estranho verificar que estou a viver o que em tempos era apenas um sonho ridículo e distante. Notei que não valorizo a tremenda sorte que tenho como deveria. Talvez isso se deva a esta constante evolução dos sonhos. É que quando alcançamos um objectivo, ele torna-se real e cumprido, pelo que tendemos a criar outro e assim sucessivamente.

Fiquei curiosa para ver onde estarei daqui a oito anos.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Royal Wedding

Harry and Meghan
Li muitos posts sobre o acontecimento que marcou o último fim-de-semana. Grande parte deles falavam sobre ciúmes, inveja, dor de cotovelo e vários outros sentimentos que, defendiam, seriam comuns a quem viu a transmissão em directo do casamento do ano.

Discordo tanto. Eu, seguidora atenta da família real britânica, deleitei-me com as imagens e não consigo compreender quando elas fazem nascer mais que felicidade, esperança e tantas outras sensações boas.

Fico feliz por ver pessoas felizes - sejam os vizinhos da porta ao lado ou os membros de uma família tão icónica como os que pertencem à Casa de Windsor.

Neste caso em particular, da plebeia que se torna parte da realeza, há muitos motivos para sorrir: o facto de se tratar de uma mulher outsider a encontrar o verdadeiro amor aos 36 anos é uma prova de que não estou errada por não ceder ao settle for less que tanta gente me tenta impor. 

Acredito que haja um tempo certo para tudo o que se encontra debaixo do céu e que tudo acontece quando tem que acontecer a cada um de nós. Não há certo ou errado nestas coisas, ou seja, não é por casar aos 25 anos que se está correctamente estabelecido na vida, feliz e arrumado. Do mesmo modo, esperar até depois dos 33 para o fazer também não é sinal de total desorganização, leviandade ou má fortuna.

Eles acabaram por se encontrar e o que os une é visível. Isso enche-me o coração. É possível, acontece e não é preciso tentar apressar o que deve acontecer naturalmente. O livre-arbítrio existe mas há coisas que nos estão predestinadas e eu espero ter sabedoria suficiente para saber reconhecer o amor para a vida toda quando ele chegar à minha.

O facto de se tratar de uma mulher mestiça como eu é o detalhe que menos me espanta em toda esta história. Primeiro, porque só o facto de se falar disso é uma incontestável prova de quão atrasada ainda é a espécie humana. Segundo, porque não é a primeira pessoa de ascendência africana a casar com um príncipe (ou será que ninguém se lembra da Angela do Lichtenstein?). 
No entanto, se isso servir para abrir mentalidades tacanhas, óptimo. Se servir para mostrar a crianças que não tenham uma pele branca como a cal que isso não faz delas mais ou menos importantes, bonitas ou felizes e que não era só nos filmes da Disney que uma princesa poderia ser como elas, melhor.

O que me deixou em modo menina romântica durante o fim-de-semana foi a expressão de amor. Aquela sensação de que eles acabaram por se encontrar, no meio desta confusão que as vidas conseguem ser. Que não importa quão diferentes sejam as vidas, as origens, os contextos, os percursos nem quão grandes sejam as distâncias; o amor acaba por nos encontrar.

Se vai ser fácil para uma americana feminista e independente, habituada a ser autónoma e a expressar as suas ideias livremente, integrar-se neste novo papel? Não. Para ela ainda deve ser mais estranho que para uma europeia, já que nós vivemos com um conhecimento mais próximo do que é essa realidade tão distante da de um cidadão comum. Ainda assim, detestaria abrir mão da minha individualidade, da minha maneira de estar na vida, da minha profissão, da minha liberdade.
Contudo, a Meghan casou com alguém que não vive com o peso da obrigatoriedade de subir ao trono. Há uma maior leveza e abertura e isso ficou bem claro na cerimónia e até durante o noivado. Acredito que ele vai estar sempre lá para a orientar e proteger, como fez quando os impiedosos ataques dos tablóides começaram a surgir.

Fico genuinamente feliz por vê-los cúmplices e embevecidos, não houve espaço para mais nada.
Porque só quem não está feliz com a sua vida pode invejar a de outros.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

[ s e m p r e ]

Eles voltam sempre. Eles voltam sempre. Eles voltam sempre.
Aquele que te ignorou depois de lhe teres dado a mão.
Aquele que te virou a cara depois de lhe teres limpado lágrimas.
Aquele que traiu a tua confiança.
Aquele que não te foi leal.
Aquele que não te levou a sério.
Aquele que te fez sentir humilhada.
Aquele que te fez chorar.
Aquele que te descredibilizou.
Aquele que destruiu a tua auto-estima.
Aquele que te apontou o dedo.
Aquele que brincou com a seriedade dos teus sentimentos.
Aquele que te rebaixou publicamente.
Aquele que te difamou.
Aquele que te magoou sabendo que o fazia.

Eles voltam sempre.
De joelhos.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

temos mesmo que aproveitar esta breve passagem por aqui

O meu amigo perdeu o pai. E eu chorei, porque saber que ele está triste faz nascer tristeza em mim. Dói-me saber que o meu amigo está a passar por essa dor. Custa-me, fico com um nó gigantesco na garganta a condicionar a minha voz, sempre tão decidida, hoje tão sumida. O meu amigo perdeu o pai e eu já lhe disse que não há muito para dizer - estou aqui. E não chega, não chega nada porque esta merda da morte deixa-nos com espaços vazios. Nós só nos habituamos a algumas ausências, nunca mais voltamos a ser quem fomos antes de nos serem arrancados de nós os que amamos. 

Sabem quando somos pequeninos e temos aquele medo terrível de que os nossos pais morram? Eu ainda tenho esse medo. Não contenho as lágrimas quando penso nessa possibilidade - não é uma possibilidade, é uma certeza, tão absoluta quanto o nascimento. Porque é que não é tão natural morrer como nascer? Porque é que em tantos anos de existência neste planeta ainda não aprendemos a lidar com isto? É a saudade, são os bancos vazios, é o lugar à mesa, a tosse que já não vamos ouvir, o riso, o calor das mãos, o aconchego do abraço, a reciprocidade do olhar. É tudo isso e o que não sabemos. Tudo isso e o que não dizemos. É a música que nos cantaram em pequenos ou a piada sem graça nenhuma. É o vento fresco no rosto e o cheiro do prato preferido. O horizonte. Nada. 

A minha amiga perdeu o avô. E eu fiquei sem palavras. Doeu-me a dor dela e doeu-me lembrar de que já não tenho nenhum avô, nenhuma avó. Estamos crescidos, os mais velhos estão cada vez mais velhos e começam a morrer, é mesmo assim. E ainda que saibamos de tudo isso como sabemos a tabuada do cinco, continuamos a sentir o coração ser cortado quando sabermos que a alma do outro, aquele que amamos e tantas vezes sem o dizer, abandonou o seu corpo. A matéria deixou de funcionar, a máquina parou. E aquele sopro já não está lá. Libertou-se.

Vi um homem morrer, uma vez. Já vi muitas pessoas sem vida mas nunca tinha visto ninguém morrer. Solucei. Não o conhecia. Morreu na estrada, a poucos metros do meu carro. Caiu, simplesmente. E eu vi-o morrer. Não há dia nem noite em que passe naquele lugar e não me lembre dele. Nestas coisas não há estratificação social, poder económico nem nível académico. Há humanidade. Só. Um de nós deixou de viver. Um da minha espécie partiu. É assunto meu, também. E chorei a sua morte, sozinha no carro, com um desespero incontrolável, como se tivesse privado com ele. Porque senti - tudo em mim sentiu - a libertação da sua alma daquele cárcere carnal. E é um momento tão poderoso. Tão impressionante.

Morte. Vida. Tempo. Amor. Abraço. Olhar.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

gostar do todo que sou

Sou a Ana. Ao lado, uma foto minha tirada em 2011. Meses antes, tinha terminado um processo de reeducação alimentar que levou a uma perda de peso significativa. Mais de vinte quilos abandonaram o meu corpo ao longo de um semestre. Com eles, foi-se também a auto-estima, ao contrário do que seria previsível. 
Já partilhei aqui posts sobre o tema, não é novidade para ninguém que me siga, leia ou conheça que vivo em dieta, já que reprogramei o modo como penso a comida desde que tive o privilégio de ser acompanhada por uma nutricionista maravilhosa, com competências multidisciplinares e uma imensa paciência para mim, que tendo a enjoar tudo e mais alguma coisa. 
A rubrica lady lamp fica fit (sqn) foca exactamente este assunto, demonstrando que viver saudável e com sabor é possível e partindo da premissa que defende que super alimentos são aqueles que não sendo gordos, são cheios de nutrientes. Não é preciso atolar o estômago de quinoa, berrar por alimentos gluten free e adoçar o café com stevia para comer bem.
Não sou de modas, gosto de comida real e é isso que trago para as minhas refeições. Tudo isto deveria contribuir para que me sentisse bem na minha pele. A verdade é que não. Continuo a sentir-me enorme.

À esquerda, uma foto minha bem actual, tirada numa tarde de sábado tão descontraída como divertida. Entre as duas fotos há muita vida. Um noivado desfeito, uma mudança de carreira, um romance escrito, uma pós-graduação terminada, quatro mudanças de casa, muitos lutos, tantas dores. A certa altura, engordei. No ano mais difícil da minha existência, descuidei-me, não queria saber de nada - absolutamente nada. Só da minha dor. Sempre que pensava que estava a sarar, acontecia outra tragédia. O tempo passou e voltei a ter cuidado com as minhas escolhas. Quando me vi nesta fotografia, tive a sensação de que talvez não estivesse assim tão gorda - as bochechas são as mesmas, não há pneus, continuo a sentir as minhas costelas e tenho ossos bem visíveis. No entanto, quando me vejo ao espelho não me sinto bem. Na verdade, não me sinto bem desde que perdi aqueles vinte quilos. É que apesar de não me achar feia, não há muitos dias em que me ache realmente gira. Parece-me que deixei de gostar de mim como mereço. Não importa que me digam quão bonita sou, quão magra estou, não vejo nada disso.

Nunca quis ser skinny, até porque sou uma mulher com 1,70m e a minha estrutura óssea não é esguia. Sou uma ampulheta e gosto das minhas proporções. Tento contrariar cada crítica com um elogio, porque sei que se fosse tão cruel com outra pessoa como sou comigo, estaria sozinha no mundo. Então tento relembrar que as minhas mãos são bonitas, que o meu cabelo é forte, que o meu pescoço é alto e que os meus pés ficam lindos em qualquer par de sapatos. 

Mas quão irónico é que alguém que trabalha directamente com a auto-estima dos seus clientes se sinta assim a seu respeito? Quão estranho é que alguém tido como confiante por todos seja um poço de fragilidade no que toca ao amor pela sua imagem?

Passo os dias a encorajar outras pessoas, a fazê-las ver quão especiais são devido às particularidades que as tornam únicas e dou por mim com tanta dificuldade em aceitar o invólucro que faz parte do todo que sou. 

Foi esse o mote para que ontem me comprometesse um pouco mais com o meu corpo; além de todo o cuidado com a alimentação, decidi investir na actividade física, algo que será um sacrifício tremendo para mim. Na pior das hipóteses, fico com acesso livre ao spa do ginásio durante um ano. Na melhor das perspectivas, aprendo a gostar mais de mim, a ter mais carinho por este corpo que é o meu e a orgulhar-me dele.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Le Grand Rêve

O meu final de tarde da última sexta-feira teve como cenário o Pestana Palace, em Alcântara. Mais propriamente, a casa do lago, o espaço ideal para conhecer a materialização de um sonho.

Como partilhei no meu Instagram, fiquei a conhecer a marca que a minha amiga Ana lançou. Chama-se Rêve e é mesmo o sonho dela feito tecido, corte e cor. Muita cor. 


Revelei nas stories um pedacinho do que foi o evento mas aproveito para vos contar que os modelos desta primeira colecção são lindos - de vestidos a jumpsuits maravilhosos, todos perfeitos para eventos especiais. Cada uma das peças tem um detalhe feminino que a torna única: um laço, a forma como a renda é aplicada, um decote profundo nas costas ou um folho exuberante. 


Depois do lançamento, onde pude ver e tocar nas roupas, apreciar os acabamentos impecáveis e as texturas macias, partilhei com a Carmen o mimo que levei para casa.


O que estava lá dentro? Entre outras coisas, um lenço com os tons escolhidos para a imagem da marca e as delicadas flores de jasmim que se associam ao respectivo logo.



...mas o que realmente importa está aqui, no site da marca. As roupas estarão disponíveis em pontos de venda pelo país mas podem começar já a comprar online!

Além de agradecer o convite, desejo à Ana todo o sucesso e prosperidade nesta sua parceria com a mãe. Arriscar num sonho que veste todas as idades compreendidas entre os 15 e os 50 anos (ou mais, que a juventude não tem nada que ver com anos vividos) com criatividade e qualidade na confecção exige muita determinação e garra - e eu tenho a certeza de que essas características definem o percurso de um negócio nesta indústria.

Já foram espreitar?

quinta-feira, 10 de maio de 2018

fragmentos de mim

não pára, a vida. sempre a andar, sempre a correr, um dia, outro, uma semana e um mês. não consigo acompanhá-la, o meu tempo é outro. é como se não fosse terrena, não sei viver aqui, não sou como toda a gente que vai fazendo a vida sem pensar nas flores que estão tão garridas este ano. não olho para baixo enquanto ando na rua, vou de olhos postos no céu, olha aquela nuvem, tão bonita, rasgada por raios de luz. não gosto de coisas aborrecidas, maçam-me os impostos e as contas para pagar. não gosto de débitos directos, de facturas nem de dar o número de contribuinte. não gosto de ir ao banco nem de assinar contratos. parece ser tão mais fácil para toda a gente. sinto-me sufocar quando me prendem nestes emaranhados, os tornozelos presos no fundo do mar e não consigo vir à superfície. sou livre, a minha alma é maior que o corpo que a acolhe, não sei ser de outra forma. e no meio do tanto que tenho para dar, perco-me e entristeço-me sempre que me sinto perdida, pequenina, sem norte. por onde ir, que passos dar? só sei onde quero chegar. o caminho está onde? preciso de luz aqui, que a minha vai apagando. não vejo nada, que o sal das lágrimas já tornou turva a visão. 

quarta-feira, 9 de maio de 2018

pior que fazer posts iguais aos de toda a gente...

...e achar que a sua opinião é de extrema importância para o resto dos humanos, é fazê-los mal feitos. 

Apesar de ser consultora de imagem, não sou pretensiosa ao ponto de acreditar que o meu parecer é essencial. Às vezes enalteço um ou outro outfit, algo que mexa mesmo comigo. Outras vezes, não resisto ao meu natural tom jocoso, se a figura for realmente inacreditável de má. No entanto, evito fazer aquele post básico e igual ao de milhares de outras pessoas. Acho chato. Repetitivo. Gosto de originalidade. Sou uma seca, vá. 

Mas é como vos digo: pior que fazer, é fazer mal. Agora com a MET gala, foi o descalabro. Uma tristeza ver looks de anos anteriores com a legenda «os meus favoritos da MET gala 2018». Porra, pá.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

dor, again.

Lembram-se de quando vos falei sobre a minha dor ciática? Estava a dar cabo de mim. Nunca senti dor que me limitasse tanto. Além de não conseguir estar em pé durante muito tempo, de não ser capaz de dar longos passeios ou de não aguentar andar de um lado para o outro nesta Lisboa linda que adoro palmilhar, também envergonhei algumas pessoas com as minhas poses pouco discretas. 
Desde ter que empinar a minha nádega esquerda sem pudores em plena fila do supermercado a ficar de cócoras no meio do Lust, aconteceu de tudo. Pessoas, a dor ciática não me deixa viver. Estou sentada e lá vem aquela dor lancinante. Acordo a coxear. Deitar-me não alivia. No carro, dói. Não há como fugir, a dor aparece quando bem lhe apetece e permanece ali, faça eu o que fizer, tome eu o que tomar. Dias e noites de puro massacre.

Sei que somos muitos porque recebi muito feedback com informações preciosas sobre a temática (todo um novo mundo para mim!). Obrigada pelos testemunhos, foram mesmo importantes para que percebesse que não estou idosa nem caquética. Ainda por cima, descobri que existem inúmeras formas de lidar com este enorme obstáculo à vida normal de um ser humano saudável.

Depois de demasiado tempo de espera, lá fui para o osteopata na esperança de aliviar o sofrimento contínuo a que, confesso, já me estava a habituar. Descobri que o meu músculo piramidal estava a comprimir o nervo ciático e essa era a razão para que sentisse aquela dor aguda desde a nádega aos dedos dos pés - três deles estão desprovidos de qualquer sensibilidade nas extremidades até hoje. 

Sim, o osteopata teve que me massajar com suavidade o rabo como se fosse meu marido enquanto eu sentia que ele me estava a engomar com uma tonelada de aço quente. Sim, verti lágrimas. Sim, estalou-me um bocadinho, mas só ali na lombar porque tinha um bloqueio qualquer (já marquei radiografia para perceber exactamente o que se passa) que influenciou todo este problema horrendo.

Só sei que saí de lá a sentir-me mais alta e cheia de arrepios, que demoraram cerca de meia hora a desaparecer. Já não sabia o que era andar sem sentir todo aquele drama acontecer na minha perna e no meu pé. No dia seguinte estava realmente dorida e tinha meio rabo de Kardashian, que a zona mais massacrada na sessão com o osteopata inchou bastante - sexy! 
Desde a semana passada que não há cá dor essa, porque o reumatismo anda terrível! e tenho alongado a zona lombar após qualquer esforço - caminhadas ou demasiadas horas de pé. O melhor de tudo são as massagens da Mana Lamparina, que doem mas sabem a pedacinho de céu.

A próxima fase é mesmo a radiografia à coluna e pensar numa forma divertida de desenvolver musculatura nas costas para suportar isto sem esforçar o esqueleto. E o que eu adoro desporto... 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

ver-te passar

...e quando te vi passar, nessa tua nova vida, não te quis chamar, nem acenei, fiquei apenas a ver-te ir. Não tinha nada para te dizer, nem um olá me sairia. Então deixei-te ir, fiquei invisível e fiz o que deveria ter feito antes: virei a cara. Continuei a divertir-me com quem gosta de quem eu sou. Não me lembrei mais de ti até sonhar contigo. Porque é que ainda sonho contigo?

terça-feira, 24 de abril de 2018

já nada é como foi.

Como o sonho, é uma constante da vida. Tão concreta e definida como outra coisa qualquer, causa-me desconforto. Sou naturalmente avessa à mudança, ainda que não caiba em zonas de conforto. Há dicotomias e paradoxos que não se explicam - são, simplesmente. 

Via o primeiro discurso de Canel enquanto presidente de Cuba e os meus olhos humedeceram. «Parvoíce», pensei. «Nem és comunista!» - nem cubana, acrescento.

Já não há Fidel. Já não há avô João, que conviveu com ele. Já nada é como foi.

O meu olhar vagueou pela paisagem com que a janela grande me deixa deslumbrar, pousou no céu e quis voltar para casa dos meus pais. Quis tanto.
Quis abandonar tudo - a casa que amo, a cidade onde nasci, a minha carreira e a aventura desregrada que caracteriza cada um dos meus dias. Quis fugir.
Já nada é como foi e eu também tenho medo, medos, tantos. Medo de perder o que ainda nem ganhei. Medo de nunca alcançar tudo o que ainda tenho por conquistar. Medos.
Quis voltar atrás no tempo e deitar-me entre os meus pais, na cama deles, numa manhã de sábado. Ali estava tudo bem.

Mudou tudo, mudou o mundo, mudou a vida e eu com ela. Sou grata por cada viragem, por cada alternativa à direcção em que rumo. Sou grata pelo agora que é um verdadeiro presente. Mas porra, custa tanto.
Estar aqui aterroriza-me. Sozinha. E eles sozinhos, sem mim. Não estamos todos juntos, não vivo na nossa casa, aqui tenho medo.

Sinto que já vivi muitas vidas, testemunhei muitos mundos, integrei muitas realidades. 

Já não há Fidel. Já não há avô João. Já nada é como foi.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

obrigada, wipa.

Chorei quando a minha wipitxa me enviou um texto, na semana passada. Um texto que poderia ter sido escrito por mim - falava de uma das perdas mais dolorosas com que temos que aprender a viver. A ausência de quem ainda está debaixo da mesma lua que nós. A partida de quem ainda está vivo. O luto das amizades, portanto.

Sofro mais com problemas relacionados com amizades do que com términos de relações amorosas e já aqui falei, de forma mais ou menos velada, de como sofri tantas perdas nos últimos anos. Aceitar a ida de pessoas que considerava alicerces da minha existência foi difícil. Lidar com a saudade não é um processo simples, ainda que não seja impossível e o tempo se encarregue de levar o pesar. 

O momento em que sangra tudo em nós e em que finalmente decidimos parar de insistir no que não pode ser apenas um esforço unilateral é marcante. Diria até definitivo. Morrem coisas bonitas que demoram a florescer. E enquanto choramos a ida de um amigo, há outros que se erguem e se revelam. E o texto também focava esse aspecto tão importante nesta jornada que atravessamos enquanto seres sociais. 

Olho à volta e tenho pessoas maravilhosas a morar em mim. Foi por isso que chorei; era gratidão. Houve traições, gigantescas quebras de confiança, facadas desleais. Mas há muito amor, tantos abraços quentinhos, imensos sorrisos cúmplices, telefonemas intermináveis, gargalhadas genuínas, mãos que nos ajudam a levantar. Que bom que é sentir que a Vida leva mas também traz. Saber que num mundo de gente louca, há quem valorize a nossa presença, quem nos queira bem, quem nos leia e entenda sem esforço. E que perfeito, que sorte imensa, quando é recíproco. 

Naquele dia, em que doía qualquer coisa em mim, ela não sabe quão importante foi ser recordada de deixar de contemplar a aridez dos vazios para focar a minha atenção nas pessoas-bênção que tornam os meus dias mais bonitos. 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

p r a i a

Beyoncé
Vou à praia até no Inverno. Vou à praia durante o ano inteiro. Não faço nenhum desporto de mar, vou apenas para manter a minha sanidade intacta. Esteja frio ou um calor imenso, preciso de me descalçar e sentir que através dos meus pés, descarrego as energias negativas na areia. Fico ali, sozinha ou acompanhada, sentada durante um pouco. Quando chego, pode haver um choro compulsivo ou uma imediata sensação de paz e leveza. Fica tudo lá, espalhado pelos grãos de areia. Sei que com ou sem bronze, regresso tranquila. Serena. Centrada.

Esta semana vivi o meu primeiro dia de praia à séria, com direito a bikini e tudo. Precisava de sol na minha pele, da areia, do som do mar e do vento, do cheirinho a dunas.

E aquele banho ao chegar a casa é sempre o melhor do mundo.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

dos sítios altos.

«A minha vida é um autêntico electrocardiograma», dizia, entre a constatação e o queixume. Não tinha ainda compreendido a riqueza de ser profunda, densa, viva. Não sabia que ser rasa não é para almas inteiras e grandes, que ser pequena não se coaduna com o sangue que lhe ferve, que há um sentir de que quem gosta de ser e de se dar não abdica. 

Então divide-se entre lágrimas e sorrisos, a alegria das chegadas e a tristeza das despedidas, o êxtase dos dias bonitos e o pesar das noites escuras sem luar. Fechada nos Invernos para florir nas Primaveras, vai com leveza nos passos e põe nos sonhos todo o insustentável peso.

O que importa é não esquecer de fitar o horizonte dos sítios altos.

[ in @anarendalltomaz ]

quarta-feira, 18 de abril de 2018

[ anti-racismo ]

De cada vez que dizemos «eles», segregamos. 

De cada vez que nos referimos aos outros como parte de outro grupo, dividimos.

De cada vez que nos distanciamos deles, damos lugar à separação.

Por duas vezes tão distintas, fizeram-no ao pé de mim. «Eles», os pretos. «Eles», os muçulmanos.
Como se «eles» não fossem parte da população mundial que também «nós» integramos.

Ao tornar um determinado grupo num grupo, excluímos - os que supostamente fazem parte dele e também quem fica de fora. Se apontar como diferente e categorizar humanos, dou espaço a que qualquer tipo de segregação seja legítima. Tu vais para um lado porque és isto, tu fazes aquilo porque és aqueloutro.
Como se não fôssemos todos parte deste estranho lugar que habitamos. Como se houvesse raças de humanos além da raça humana, a única cuja existência efectivamente reconheço.

Li há dias que numa sociedade racista, não basta não ser racista; é preciso ser anti-racista.

Nasci anti-racista.

Não sei como fazer para reverter preconceito, seria preciso reverter ignorância, acrescentar inteligência, inserir princípios que deveriam ter sido incutidos e encaixados por memória genética.

Há algum tempo, na minha mesa de café, alguém defendia que Portugal não era um país racista. A pessoa em questão tinha particularidades e um contexto que não fundamentavam uma opinião credível: a tez pálida, os olhos claros e o tom alourado do cabelo não permitiriam que soubesse do que falava, já que sempre viveu num país europeu em que o preto é descrito como preto. Não ser racista não implica que a sociedade que nos rodeia não o seja.

Dizia ela que não existia racismo em Portugal, que na sua família sempre tinha sido comum o convívio com quem não era branco, que já não havia qualquer tipo de diferença no comportamento perante quem apresenta características físicas que não se coadunassem com as suas.
Que engano bom. Quem dera que assim fosse. Só mesmo quem não tem noção da realidade pode afirmar algo tão longe de ser verdade com tamanha convicção.

Nascida e criada numa família tão cosmopolita como caracterizada pela mistura de carga de melanina, só descobri o racismo quando outros meninos me apontaram o dedo por ser filha de uma preta. Não percebi, como hoje não o percebo, mas reagi como um ser sensível e cheio de luz: «mãe, quero ser como tu», chorava.

Os meus pais contornaram a situação alegando a riqueza que é ser mestiça: «meu amor, tu não és só leite, não és só chocolate, és ainda melhor - leite com chocolate!».
Infelizmente, isso não chega para começar a usar saias sem vergonha a partir de Abril. A minha cor de lula nunca foi razão para que me orgulhasse. Orgulho, sinto de mim, por me ter surpreendido quando uma tia sublinhou o facto de o Lenny Kravitz ser mulato. Nunca tinha olhado para ele assim. Achava-o fenomenal, simplesmente. Bonito. Não pensei nele como um ser com maior quantidade de melanina que outros.
Não penso assim. Não vejo assim.

E dói-me quando alguém olha com espanto e interrogação para aquele casal que tenho como parte do meu círculo de amigos como a preta que namora com o branco. Ou quando alguém da família dela lhe diz que devia encontrar um marido escuro como ela.
É tão absurdo como não gostar de alguém por só ter um rim - é uma diferença semelhante. Ou por ter nascido com cabelo liso. Ou por ter nascido com dois dedos do pé colados.

É invólucro.

Hoje sei que ter vindo ao planeta nesta mistura de fado e semba faz de mim um ser humano híbrido, na verdade. Pleno. Demasiado escura para a Europa, demasiado branca para África. Do mundo inteiro, afinal.
Não tenho carapinha, mas tenho um rabo grande, um nariz com ponta redonda e os lábios carnudos. Sou feita de fragmentos de dois pólos maravilhosos.

Pouco depois de nascer, a minha mãe foi abordada na rua, numa terra pequena onde o meu pai dava os primeiros passos na sua carreira. Uma velhinha queria ver a menina, a filha do veterinário. A minha mãe mostrou-me à inofensiva senhora, que assim que teve um vislumbre da minha pele, se ajoelhou e erguendo os braços ao céu, exclamou «Graças a Deus! Graças a Deus que a menina saiu branquinha como o pai».
Condescendente, a minha mãe ri-se ainda do episódio. O meu pai expulsou a velha, eu ainda hoje me sinto chocada pela demonstração de tão atrevida estupidez.

Não lido bem com racismo. Não gosto quando me dizem que a minha mãe é quase branca, como se fosse preciso desculpá-la ou aliviar o horror que é não se ser claro. Não gostei quando lhe disseram para chamar a patroa, assumindo que alguém com aquele tom de pele não poderia ser a dona da casa. Fiquei furiosa quando uma superior lhe disse que iria gostar da nova colega, que era pretinha mas muito inteligente. Não pode haver tolerância para quem não sabe que devia ter vergonha de sentir ou pensar com preconceito, quanto mais abrir a boca para o verbalizar.

Esta subvalorização de quem não detenha características que se assemelhem às nossas é fruto de uma óbvia sensação de superioridade. Interessante é notar que a minha mãe nunca se fez valer da sua formação académica superior à de quem a discrimina, do nível financeiro avultado que caracterizou a sua existência, do facto de se mover numa classe social elevadíssima.
No entanto, eu não sou dotada dessa elevação toda. Já estraguei alguns momentos, confesso. Já arruinei jantares por não me calar quando alguém decide não esconder o seu racismo.

É verdade, vivemos num país em que não se atiram pedras a pessoas que não sejam brancas. Isso não significa que não vivamos num país racista.
De cada vez que alguém se surpreende porque um preto se comporta com bons modos, é racismo.
De cada vez que alguém chama preto a um preto, é racismo.
De cada vez que alguém diz que até tem um amigo preto, é racismo.
De cada vez que alguém se surpreende porque há um preto poliglota, é racismo.
De cada vez que há alguém que conta uma piada racista, é racismo.
De cada vez que alguém se espanta porque um preto é inteligente, é racismo.
De cada vez que alguém tem medo de alguém com quem se cruza na rua só porque não é branco, é racismo.
De cada vez que alguém me diz que não pareço mestiça, é racismo.

E é preciso combatê-lo. É preciso não ficar calado perante ele. É preciso ensinar que é errado. Que não se pode. Que é ridículo. Que é feio.

Da mesma forma, ser anti-racista não é defender apenas o lado africano.
De cada vez que alguém se refere a outro humano como branco, é racismo.
De cada vez que alguém chama azeitola ou neto do colono a um branco, é racismo.
De cada vez que alguém fala crioulo na presença de quem não percebe a conversa, é racismo.
De cada vez que alguém critica outra pessoa por ter casado com um pula, é racismo.
De cada vez que alguém parte do princípio que o racismo parte exclusivamente de quem não é negro, é racismo.
De cada vez que alguém age com desconfiança relativamente a outro por ter um tom de pele diferente, é racismo.

Já fui insultada pelos dois lados que foco aqui e que se esquecem de que não há lados. Somos todos humanos e eu sou a prova viva disso.
Somos todos gente.
Somos todos.

Magoa-me que no MODAAFRICA me tenham perguntado o que raio estava a fazer ali, porque sou branca. Curioso que a directora do evento tenha nascido em Aveiro, seja filha de pais portugueses, tenha pele clara. Como o meu pai, que sendo um alfacinha de gema, sempre disse saber ser mestiço - alguém vai negar que Portugal foi morada de árabes, visigodos e de tantos outros povos que não cabem na caixinha do ariano?
Magoa-me que em Angola me tenham insultado na rua, que me tenham dito para voltar para a minha terra. Eu estava na minha terra.
Magoa-me que uma fulana me tenha dito que não queria ser parecida com a Mariza, porque ela é preta.
Magoa-me que não saibamos todos que o ser vai além do corpo. 
Que somos todos pó de estrelas, que somos todos alma e espírito para lá do visível.
Que o essencial é invisível aos olhos.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

[ era tudo tão simples, era tudo tão bonito ]

Nina Dobrev
E ontem, ao telemóvel com a minha amiga que menos noção tem do todo maravilhoso que é, senti-me outra vez miúda. Deixámos o presente e viajámos até um tempo que já não existe, só na memória, no peito, na História.

- Eu também adorava fazer as roupinhas para as minhas Barbies com as amostras de collants opacos!

Recordar com pormenor cada detalhe, como se estivesse lá, certas brincadeiras, coisinhas pequeninas que me divertiam tanto. A criatividade que me guiava, uma mente sempre pronta a criar, uma imaginação infinita - tão infinita como os sonhos que sonhava acordada. 
Partilhámos todas as possibilidades que uma caixa de papelão oferecia, todas as bandas desenhadas que líamos repetidamente, rimos com a lembrança dos livros d'Uma Aventura.

- Também achavas as ilustrações horrorosas? Eu tinha a certeza absoluta de que faria melhor! Aquele cabelo das gémeas nunca me convenceu.

E voltei a mim, lá, no meu quarto. O tapete em tons de lilás debaixo dos meus pés, à minha frente a janela de madeira branca, aberta num dia bonito de Primavera, o sol a iluminar o espaço todo, tão grande era aquele meu pedaço de casa. 
Há uma brisa suave que agita as árvores do quintal. Há uma hera mágica a cobrir as pedras do muro do pátio, cada folha tinha poderes mágicos para que quem as segurasse fosse dotado de coragem para alcançar qualquer objectivo. 
Convenci meninas a andar de bicicleta sem rodinhas com esta história. 
Mal sabia eu que iria precisar de folhas de hera todos os dias, que crescer é uma dor imensa e uma coragem hercúlea a cada instante. 

Nas minhas mãos não há verniz nas unhas, estou bronzeada porque passo as tardes a brincar na rua. No pulso, tenho um relógio cor-de-rosa com o Mickey Mouse. Sim, os braços são os ponteiros. Abraço a minha Vó quando quero, ando de ténis, uso o cabelo num ponytail, decido o que quero lanchar sem pesos na consciência. Toco nas sardaniscas que espreitam das fendas dos muros, faço bailarinas com as papoilas que apanho nas bermas dos caminhos e rebolo no chão com a minha cadela. 

Sou feliz. 
Sou feliz todos os dias. Sou feliz quando a minha mãe me vai buscar à escola no Saab bordeaux e me deixa abrir a janela do tecto. Sou feliz quando uso o meu gel de duche da Oilily, depois a loção corporal e o eau de toilette da mesma marca. Sou feliz quando tenho o campo de futebol do cimo da rua vazio, só para mim, e posso andar de patins à vontade. Sou feliz quando mergulho para a cama dos pais, os lençóis verde água parecem uma piscina. Faço parte do clube da Barbie. Tenho um jeito incrível com as raquetes. Não quero sair de dentro de água, estou sempre na piscina. Escrevo muito, invento revistas que construo com folhas agrafadas e marcadores, crio artigos e desenho as roupas e as modelos dos editoriais, onde ficou esse potencial todo? 

Era tudo tão bonito, podia brincar um pouco mais enquanto o pai não chegasse a casa do trabalho para irmos jantar. Ajudo a pôr a mesa enquanto faço rir a Vó e no meu lugar, pouso com vaidade a louça da Turma da Mônica. 
Não quero saber se estou despenteada. Não quero saber das minhas bochechas. Sei que a beleza está em mim, dentro de mim. Sei que vou ter uma vida linda porque não mereço menos que isso. Todos confirmam a minha inteligência acima da média, a minha maturidade, a minha criatividade. 

Toda a gente via. 

Eu vejo, daqui. 

Espero não desiludir aquela miúda tão fofinha como chata, tão ingénua, tão feliz. 

terça-feira, 10 de abril de 2018

sobre viver com dor física

Isto da dor é muito relativo. É difícil medi-la com exactidão, já que a sensibilidade ou a resistência variam de pessoa para pessoa. É daquelas coisas: uma topada no mindinho do pé e parece que a alma me sobe pela garganta... mas removi os dentes do siso sem problemas. Quando me perguntam «de zero a dez, como classificaria determinada dor», penso que esta será possivelmente uma das perguntas mais parvas que se pode colocar a alguém, já que o meu nove na escala da dor pode ser o cinco na escala da dor da minha mãe.

A verdade é que não sou de me queixar e só nas últimas é que me lamento - quando não aguento mesmo mais. Evito medicar-me, acredito que o meu corpo supera tudo. Não gosto de perder tempo com médicos nem com idas a hospitais porque tento sempre que o veterinário que tenho como pai me solucione os problemas de saúde com que vou lidando. 

Aos catorze anos foi-me diagnosticado um tipo de reumatismo. Não fiquei muito chateada, já que a minha avó teve o infortúnio de começar a viver com isto aos dez. Quanto a mim, começou nos membros superiores e durante a faculdade senti-o chegar também aos joelhos. 

Quando me via em pose de Tiranossauro, a tentar retirar os pratos da prateleira para depois os colocar sobre a mesa, o meu pai percebia que estava aflita com dores. Como disse, não sou de me queixar, no entanto, às vezes começo o dia com lágrimas porque a dor que me acorda é insuportável e não consigo esticar os braços. Tenho a sensação de que vou ficar presa na posição em que estou para todo o sempre, que tentar qualquer movimento é excessivamente doloroso.

Lembro-me da primeira vez que percebi que essa dor queria condicionar também as minhas pernas. Estava no cinema, com o meu namorado, quando a meio do filme entrei em pânico. Não conseguia mexer os membros inferiores, uma dor aguda nos joelhos a cada tentativa de o fazer. Já repararam que o ar condicionado está sempre ligado no cinema? Está sempre frio - demasiado, para mim. Ir ver um filme implica estar constantemente a trocar de posição para evitar que esse momento chegue, uma vez que enquanto me mexo, não dói tanto. 

Nas aulas de Educação Física, de que nunca fui fã, os professores não acreditavam em mim. Invariavelmente, julgavam tratar-se de uma desculpa ridícula de uma aluna preguiçosa. Quando conto a alguém que tenho reumatismo, sem entrar em detalhes, ninguém acredita. Por ser detentora de um sentido de humor característico, toda a gente se ri. Aparentemente, sou uma jovem mulher sem dedos deformados, por isso não faz sentido. Mexo-me normalmente, portanto seria absurdo ter reumatismo, essa doença dos velhinhos que não conseguem andar direitos. Como não me queixo, não me lamento e não me vitimizo, não parece nada sério.

Mas é.

Limita-me. 

- E não há tratamento?

Não. Há anti-inflamatórios, que podem amenizar a situação e atrasar a evolução mas não me curam. 
Dói, limita, cansa. A conduzir, na praia, em casa, num restaurante com amigos, no trabalho. Sempre. No frio ou no calor, pode doer. E sabem o que se faz? Nada. Respira-se fundo e continua-se a viver. 

É por viver com isto desde miúda e não me lamuriar que não compreendo bem quando certas doenças que implicam dor crónica se tornam bandeiras e hashtags. Como se houvesse necessidade de dizer ao mundo «hey, tenham peninha de mim que estou aqui com dores». Para quê?

Por falar em dores, parece que agora estou com dor ciática. Estou à espera de vaga no meu osteopata, que isto são dores que não se aguenta e não há comprimido que me ajude nem álcool que me deixe insensível. Algum expert na matéria desse lado? 

segunda-feira, 9 de abril de 2018

A velhice é uma merda.

Não tenho medo nenhum de morrer. Tenho medo de ficar velha.
de olhar para o espelho e não me ver. não me encontrar. só lá no fundo do olhar.

Tenho medo de me cansar da vida e de pedir a Deus, num clamor sofrido, que me leve de uma vez por todas. 

Não gosto de saber que há pessoas que se sentem sozinhas e abandonadas só porque dão trabalho ou porque são cansativas, por se repetirem tanto ou por não se lembrarem do que aconteceu há cinco minutos.

Dói-me na alma. Custa-me. Não gosto da velhice. 

Não gosto da forma como tratamos os nossos velhos. 

Não gosto que sintam que estão à espera de morrer, porque a vida deles já terminou muito antes disso.

A velhice é uma merda.

«Os bons vi sempre passar no mundo graves tormentos»

inveja | s. f.
3ª pess. sing. pres. ind. de invejar
2ª pess. sing. imp. de invejar
in·ve·ja |â| ou |ê| ou |âi| 

(latim invidìa, -ae)
substantivo feminino

1. Desgosto pelo bem alheio.
2. Desejo de possuir o que outro tem, geralmente acompanhado de ódio pelo possuidor.

"inveja", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa


É uma frase que digo com muita frequência: «nunca senti inveja de ninguém». Não faço esta afirmação por ser uma pessoa exemplar - longe disso. A verdade é que sou muito grata por tudo o que tenho, vivo e sou, pelo que não trocaria a minha jornada e existência por nenhuma outra. Além disso, sou tão esquisita com essas histórias da felicidade e das conquistas, que as dos outros não me parecem ideais para mim. 

A noção de sucesso varia de pessoa para pessoa, os desejos que temos são todos diferentes e todos atribuímos mais valor a umas coisas que a outras. Simples. A relação entre a minha amiga e o namorado dela pode ser muito satisfatória para eles mas ao observá-la, há sempre detalhes que não encaixariam na minha vida, na minha personalidade ou nos meus requisitos.
O Lamborghini alheio não me faz comichão, porque não gosto de carros que me façam querer dizer «Kitt, vem-me buscar». E se porventura alguém comprar o carro dos meus sonhos, aviva em mim a esperança de lá chegar também.

Sou, portanto, alguém que nunca sente inveja.

Por natureza, fico genuinamente feliz pelos feitos dos que amo. Quando uma amiga minha conseguiu comprar o seu primeiro automóvel sozinha, chorei com orgulho, como se tivesse sido eu a atingir esse patamar.
O mesmo acontece em todas as outras circunstâncias da vida, aqueles passos naturais na evolução do ser humano numa sociedade organizada. Vivo muito bem com as coisas boas que acontecem a quem está ao meu redor, porque me acrescentam em alegria e motivação: o ordenado maravilhoso, a casa perfeita para quem a vai habitar, o primeiro bebé que vem a caminho. Tudo.

Talvez isso se deva ao facto de ter tudo muito bem arrumado cá dentro. Ser resolvida também é isto: ao saber quem somos e para onde vamos, não queremos experimentar caminhos que não o nosso.

A felicidade dos outros é mesmo dos outros e está cheia de defeitos para mim: não é como quero. Quem pensa assim, não sente inveja, já que tem perfeita noção do que quer da vida.
Como um fato à medida, a tua bênção foi mesmo desenhada para ti e nunca me serviria. Da mesma forma que o contrário também acontece.

Só há um caso em que às vezes sinto que estou quase a ceder à verde tonalidade da inveja. Mas depois de analisar cuidadosamente o que se passa em mim, percebo tratar-se de pura indignação.

Imaginem a pessoa mais insensível, fria, oca, preguiçosa e leviana que conhecem. Agora imaginem que essa pessoa age em constante displicência. Que é irresponsável, imatura e que não é dotada de qualquer autonomia. Que tem uma inteligência mediana e não conta com os valores nem os princípios básicos para ser alguém bom bem vincados na sua fraca personalidade. Que não é uma pessoa que contribua para o bem comum em nenhuma das secções da sua vida - pessoal ou profissional. Imaginaram?
Agora imaginem que apesar de tudo isso, de não ser alguém educado, de trato agradável e interessante, essa pessoa recebe o que quer. Sempre.
Imaginem que não merecendo, recebe um ordenado muito acima da média, tem o carro que lhe apetece, a casa com que sonhou, os problemas todos resolvidos por outros.
Mais um pouco de imaginação: faz de conta que essa pessoa não só não valoriza tudo isso, como está constantemente a estragar o que lhe caiu no colo porque se está nas tintas para o que de graça lhe foi dado, por isso não estima nada (nem bens, nem pessoas, nem nada)... e que mesmo assim, se safa sempre. 
É rude, é malcriado e mesmo assim continua a receber em abundância tudo o que toma por garantido.

Isso indigna-me. Mexe comigo. Arde-me no peito. Irrita-me solenemente.
E dou por mim a censurar-me, ordenando-me que nem ouse invejar, que isso não é sentimento para caber aqui dentro - e ao olhar com atenção, não há nada disso. Há indignação, por saber que há quem mereça, quem se esforce, quem valorize o pouco que tem e não consiga passar da cepa torta. 

Olho para aqueles putos, ambos a ganhar o ordenado mínimo, felizes com a casa da porteira que conseguiram finalmente arrendar, a escolherem não arriscar já num carro. 
Olho para os outros, sem estabilidade financeira para poderem investir nos seus sonhos, a ir religiosamente para o trabalho todas as madrugadas. 
Olho para aquela, há trinta anos fiel e competente no mesmo emprego, sem ser aumentada há dez. 
Olho para os homens do lixo, sem os quais seríamos condenados a viver na trampa e expostos à propagação de epidemias graves e perigosas, a fazer aquele trabalho tão duro, durante a noite, ao frio, por tão pouco.
Olho para tudo isso e não entendo.
Porque não é justo.
Não é inveja. É indignação. E despeito.

Já dizia Camões:
«Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que só para mim
Anda o mundo concertado.»

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Uma pergunta que anda aqui a mexer comigo...

Vale a pena ser boa pessoa?

Terceira dose de pérolas do ano!

Meus queridos, eis aqui mais uma ode à ignorância e ao desrespeito pela nossa Pátria, que é a nossa Língua Portuguesa. É a terceira dose de erros ridículos do ano, que já não vos dava disto desde Fevereiro.

solidariezaram
Eu é que não me solidariezo com quem escreve assim. 

trabalho muito ardo
É aquele tipo de trabalho que aquece como fogo. Por norma, usa-se a expressão «trabalho ardo» quando nos queremos referir ao enorme esforço físico necessário para concluir determinada tarefa.

caucau
As migas que querem ser fofitas e falar à bebé para o seu mor não pedem um cacau quentinho. Pedem um caucau. Ou um caucauzinho quentinho. 

frustado
Frustada fico eu com a propagação de estupidez nas redes sociais.

centimentos
Toda a gente os tem.

destiguir
Quando temos o nariz muitíssimo entupido e queremos dizer as palavras bem ditas, mas sai-nos disto. Quem nunca? Quando a constipação é forte, chega até aos dedos e a escrita fica afectada também.

presedende
Este também devia estar com uma constipação como o anterior. Bem grave. Ou altamente embriagado. Ninguém pode escrever presidente assim e estar sóbrio ou bem de saúde.

cidadoes
Esta é velha, bem sei. Mas é exactamente por isso que não se justifica que alguém ainda escreva isto.

que a vida lhe surria sempre
Ficamos na dúvida, aqui. Será que ele espera mesmo que a vida lhe sorria? Para os mais perspicazes, poderá claramente tratar-se da expressão de um desejo por parte de um grandessíssimo sonso: na verdade, quem diz isto espera que a vida surre com toda a força o receptor da mensagem. Como é sorrateiro, diz «surria» só para que o outro não compreenda a verdadeira intenção da mensagem, que é a vontade de que o outro seja açoitado pela vida. Deste modo, assegura a sua boa reputação (ah e tal, aquele gajo só me deseja bem, é um bacano) e não dá cabo da relação.

eu não me prenúncio
É como diz o outro: «prognósticos, só no final do jogo!».

frambroesa
Parece a língua dos Pês mas com Erres. FramBroEsra seria mais correcto. Ou FramRamBoRoEReSaRa. Whatever, sempre fiquei cansada com esses jogos.

cuidado para não te chujares
É o que dá escrever enquanto se mastiga.

derejido
Este post é derejido a todo o energúmeno que queira constatar comigo a sua falta de noção por escrever assim em público.

colobradores
Ora cá está um excelente exemplo de Português de Fusão! Cobradores que dão colo. É um serviço bom para o caloteiro chorão.

creatividade
Eu sou uma pessoa tão creativa que invento palavras. É.

apromadinha
Ela é PRO em parecer apruamada. Dez minutos e está com bom ar. Sim, sim, Português de Fusão.

por um estante só queria um abraço teu
Isto até é triste, bem sei. Mas quero lá saber. Além de foleiro, confundir um pequeno espaço temporal com mobília é demasiado. Mais valia não expressar centimentos, como dizia o outro ali em cima.

alguém advinha onde estou
É confundir a beira da estrada com a Estrada da Beira. O verbo advir com o verbo adivinhar. É uma salganhada, é o que é.

empavidas e serenas
O que são empavidas? Empadas com bichos vivos lá dentro? Empatias que não estão mortas? Empalhamentos de seres vivos?  Socorro.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

a vida é como um jogo de Trivial Pursuit

é um trabalho diário. 
para nos mantermos no centro, temos que nos lembrar disso todos os dias. como os nossos pais nos ensinaram pacientemente a lavar os dentes e tivemos que ser lembrados de que é necessário fazê-lo até que se tornasse num gesto automático, num passo óbvio na nossa rotina diária. assim é com as nossas prioridades: é imperativo recordar constantemente de quem deve estar no centro delas. não pode ser o trabalho, não pode ser o namorado, a relação, o filho, não podem ser os amigos. mesmo que pareça altruísmo, amor, brio profissional. mesmo que pareça justo, bom ou nobre. mesmo que pareça correcto sair do trono para o ceder a outro, não é. 
a primeira de todas as consequências será o desequilíbrio. de dentro para fora, do nosso interior para o que nos é externo. ao perder o norte, deixaremos cair todos os outros elementos importantes da nossa vida. ao priorizar o meu namorado, coloco-me abaixo dele e dou-lhe espaço para que me tome como garantida, agindo em conformidade. ao elevar o trabalho sobre todas as coisas, deixo de estar presente para as minhas pessoas e afasto-me da vida. 
conheço alguém que me disse que a vida é como um jogo de Trivial Pursuit: temos de ter os vários queijinhos. eu acrescento que temos de estar no centro deles, zelar por nós, pelo nosso bem-estar, respeitar as nossas vontades, mimar quem somos, abrir a janela e deixar a luz entrar, sorrir, gastar tempo fazendo o que gostamos. 
o resto acabará por fluir como é devido.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Aquela minha rubrica no Pombal Jornal...

...hoje fala sobre uma tendência enooooorme desta Primavera. Passem por lá!

sonho tanto contigo.

hoje sonhei contigo. a tua avó tinha morrido e eu não sabia se me querias ali ou não. estava lá na mesma, porque parece que é assim que as coisas funcionam: estás cá na mesma, mesmo que não queiras. e eu aí na mesma, mesmo que não queiras. acordei angustiada, noutra altura ter-te-ia telefonado imediatamente, queria lá saber o que estavas a fazer, se estavas a trabalhar, quem tinhas ao teu lado. já não é assim, então guardam-se estas coisas, não se partilham, não me alivias dizendo que está tudo bem. só sabemos quem fomos, não sabemos mais nada. e hoje sei que não o fiz sozinha, nem tu. estas coisas acontecem, é a vida, é assim que se cresce e avança neste caminho em que nos puseram. nestes caminhos, que cada um tem o seu e são todos isolados uns dos outros, nós é que nos enganamos quando sentimos alguém muito próximo, muito perto, muito chegado. depois, quando achamos que nunca nos vamos afastar, o caminho de cada um segue uma direcção diferente e crescemos para lados opostos. tão opostos que já nem nos vemos, não ouvimos nada do que o outro diz, está tão longe, parece que vive noutro mundo. vive mesmo. não é no nosso. mas há pedaços de ti que ficaram para sempre a morar em mim e pedaços de mim que ficarão para sempre com morada em ti. são trocas que vamos fazendo até não haver mais nada para trocar. dizem que quando deixamos de contribuir para o crescimento de alguém, a Vida separa os corações. dizem também que é um processo tão natural que devemos aceitá-lo com naturalidade para não doer. não podemos ficar agarrados ao passado, não é? e é isso que somos. passado. 
mas não deixo de sonhar contigo, de sentir medo que alguma coisa de mal te aconteça e não te possa dar a mão e dizer que faço o que for preciso para que te sintas melhor. a amizade é mesmo mais nobre que o amor. e mesmo que não tenha a tua, a verdade é que tens a minha aqui, intacta.  







segunda-feira, 26 de março de 2018

aquelas coisas mega baratinhas que dão um jeito descomunal

Quem me segue por aqui sabe que sou ligeiramente obcecada pelo meu cabelo. Adoro usá-lo comprido, não abro mão do volume mas não suporto cabelos longos e mal tratados. É por esse motivo que aposto tanto na nutrição.

Uma das minhas mais recentes aquisições foi uma touca térmica, que uso para fazer hidratações em casa. Habitualmente, colocava os meus produtos (ampolas, óleos ou máscaras intensivas) e usava papel de alumínio para o mesmo efeito, mas o conforto é inigualável.

Estou fã e divirto-me só por me ver ao espelho!

sexta-feira, 23 de março de 2018

[ d e s g a s t e ]

Amanda Seyfried
e de repente, o primeiro trimestre do ano já foi. Janeiro, Fevereiro e Março a terminar. E nesta semana em que finalmente chegou a Primavera, senti que tinha vivido duas. Como se fosse possível ter dez dias entre Domingo e o Sábado seguinte. 

A impaciência, o cansaço, o desgaste. 

É sempre mais fácil lidar com o corpo que quer repousar do que com a mente que nunca sossega.

Senti todos os dias que queria ir fazer uma massagem, adormecer e ficar lá até que tudo se resolvesse, num sono profundo que parasse o tempo para mim. Era o que me faria feliz.

Estou cansada de tomar decisões, de projectar o futuro e de não estar naquele momento lá à frente, em que está tudo pronto, a máquina a trabalhar, os frutos prontos para colher.

Estou cansada.

quinta-feira, 22 de março de 2018

nasci assim, mas

ninguém me avisou que ser empreendedor dava tanto trabalho.

ninguém me disse que me irritaria tanto com a estupidez humana.

que me tornaria nesta pessoa que não fala dos seus projectos a ninguém, porque o segredo é mesmo a alma do negócio.

que era tão difícil ser mulher numa realidade em que a segregação por género existe.

que sempre que decido avançar sem querer recorrer ao meu pai, há mais obstáculos.

que a falta de inteligência dos outros dificulta tanto que sejam dados passos pequenos.

que aparentar juventude faria com que uma funcionária de um banco me atendesse de cócoras, perante o olhar incrédulo de uma colega.

que teria gente pouco inteligente a achar-se mais que eu.

que às vezes as oportunidades surgem sem que as procuremos.

que antes de começar a trabalhar e a facturar, há tantas despesas.

que é tão mais fácil ser apenas empregado de alguém.

que sentimos tantas vezes o peso do mundo sobre os nossos ombros.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Nunca me soube gabar

Nunca me soube gabar. Nunca falei muito sobre a média alta com que entrei em Jornalismo na Faculdade de letras da Universidade de Coimbra. Não andei a gritar aos sete ventos que acabei o meu estágio profissional (que nunca perdi tempo com curriculares) com excelente nota. 
Não o faço porque não são os números altos que me definem.
Valeu mais o doze com que saí da minha primeira e única oral, de que dependia para terminar o curso, que os redondos dezoitos que pautaram o meu percurso académico. Quando terminei a especialização em Consultoria de Imagem com um desses, houve em mim apenas a sensação de dever cumprido. 
Os números não me impressionam. 
O que me deslumbra é o legado. 
O que fazemos e o que vamos deixando.

Olhando à volta, tenho a sensação de que esta humildade é nociva, porque cai facilmente na desvalorização dos meus feitos. Uma vez que fiz muito menos voluntariado do que gostaria e que não sou dada às ciências exactas, pelo que não fiz nenhuma descoberta significativa que alterasse significativamente a vida de alguém, tenho os meus feitos como normais. E não são. Grandes ou pequenos, são os meus. E são bons. São maravilhosos. Só tenho motivos para me orgulhar de mim.


Primeiro, porque nunca recorri a padrinhos nem cunhas e nunca pedi favores. Fiz tudo sozinha, sempre com o apoio da minha família, mas sozinha. Tomei decisões com base na possível consciência das suas consequências, corri riscos e obtive resultados sempre acima do mediano. 


Segundo, porque segundo esse poeta dos tempos modernos de seu nome Virgul, "quem muito fala, muito pouco faz". E se não me vangloriei nem pedi aplausos, foi porque estive ocupada a fazer acontecer. Não preciso que me passem a mão no pêlo e me digam que fui uma linda menina. Se me esforço, se trabalho, se tenho sucesso nos meus investimentos, fico grata a Deus pelas oportunidades que me dá e sigo caminhando. Não espero o louvor de ninguém, foi assim que me educaram - para fazer uso das minhas capacidades e talentos em prol da minha satisfação pessoal e do bem comum, porque é o mínimo que podemos fazer e não há nada de extraordinário nisso. 


No entanto, sei que o facto de não apregoar por aí o trabalho que tenho, os esforços que faço e quão bem-sucedida sou também tem as suas desvantagens. O mundo ama dois tipos de pessoas: os falsos e as vítimas; e eu não me encaixo em nenhum dos grupos. Não digo que faço e aconteço para depois ter um currículo cheio de palestras dadas mas sem experiência nenhuma de terreno. Também não sirvo para o papel da coitadinha que é uma trabalhadora incansável e mal tem tempo para admirar a beleza do céu.


Sou assim, sei lá, não gosto de me lamentar nem de puxar dos galões. 

Mas e o gozo que me deu encontrar por mero acaso o meu nome numa publicação dessa que foi a minha casa durante tempos tão felizes? Ser parte da história de uma instituição que amo, respeito e admiro, depois de ter sido aluna, foi motivo de orgulho. É motivo de orgulho. E ali está o meu nome, entre outros com backgrounds mais sonantes, como a Visão ou o Público, humildemente imprimido com a ausência de um L, na Vida da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra durante o ano lectivo de 2016/2017.

Há coisas boas. Esta é uma delas. 
E ninguém ma tira.

quarta-feira, 14 de março de 2018

modas.

Angelina Jolie
Este post da Imperatriz diz tudo. Não me parece nada lógico que tenha de esgadanhar-me para encontrar algo que me desperte aquele feeling cá dentro, aquele que nasce quando vemos uma obra de arte. Salvo raras excepções - Storytailors, Filipe Faísca ou David Ferreira - não há muitos motivos para que deseje estar na front row das corridas do Eça.

terça-feira, 13 de março de 2018

A ética e a deontologia ficaram em casa.

Em casa ou no lixo. 

Assim de uma maneira muito simples para facilitar a compreensão de algum ignorante que por acaso venha a ler este post, vou ter cuidado com as palavras que escolho e simplificar ao máximo. 

O que se passa é o seguinte: é por causa de casos como este que a imagem ilustra que quando ainda era aluna do curso de Jornalismo, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, morria de vergonha na cadeira de Ética e Deontologia. A maioria dos casos apresentados como exemplo do que não deveríamos fazer vinham sempre de órgãos de Comunicação Social de Pombal ou de Leiria. Eram uma fonte tão rica de erros deste género, que o professor da disciplina em questão nem tinha que se esforçar muito para os encontrar. É por causa de casos como este que entre alunos era comum ridicularizar os órgãos regionais, onde mais tarde vim orgulhosamente a trabalhar. 

Esta notícia tem um título despudoradamente racista. E envergonha-me. Como pessoa formada em Jornalismo, como leitora e acima de tudo, como humana. 


É simples e claro. Não é preciso ser um génio para perceber nem é preciso ter um Q.I. acima da média para ler ali, naquele título, preconceito. Racismo. Daquele tão tipicamente português, disfarçado com um elogio. Como quem diz "que amorosos, os ciganos. Ofereceram cabazes a quem precisava". Como quem quer sublinhar que afinal eles não são só os subsídios e os maus modos. Como quem quer mostrar que eles não são só os putos com navalhas que roubam os meninos brancos na escola. Como quando se enaltece o preto que até é inteligente, vejam lá! Como se fosse surpreendente observar algo normal, bom ou nobre em alguém cuja tez não é clara. Como se a quantidade de melanina na pele dissesse alguma coisa sobre o ser que está debaixo dela.

E porque é que o Jornalista (com J maiúsculo) tem responsabilidades acrescidas neste campo? Porque o seu trabalho é serviço público. Não interessa quem é a sua entidade patronal: o seu dever é informar de forma isenta, séria e livre de discriminação. 

Cabe-lhe incutir na sociedade, através do produto do seu trabalho, noções básicas pelas quais se deve reger. E aqui, no caso que a imagem demonstra, houve alguém que não merece ser designado como Jornalista, que despoletou com este título comentários como "eu até conheço ciganos que são boas pessoas". 

Se fosse um grupo de pessoas brancas, filhos de brancos, de classe média, com licenciaturas e empregos das nove às cinco, como seria o título desta notícia?

E se vierem comentar este post para me dizer que não, que o nosso país não é racista, então leiam isto primeiro. Depois falamos.

Apesar de tudo

Kate Upton
Apesar de tudo.

Se tudo for o facto de não me teres ouvido.
De teres preferido acreditar no que aqueles que nunca me conheceram como tu te disseram sobre mim.
De teres entrado num jogo baixo e pequenino, de intrigas e mentiras sobre alguém que fingiste não saber quem era.


Apesar de tudo.
Se tudo for o desrespeito fácil, a leviandade com que falaste com outros sobre coisas que não diziam respeito a ninguém.
Se for reduzires-te ao grupo de pessoas que ele aprova.


Apesar de tudo, apesar disso tudo, continuo a desejar-te o melhor.
Apesar de tudo, deves saber que sabia disso antes mesmo de ti.
Apesar de tudo, deves saber que não sinto a tua falta todos os dias.
Apesar de tudo, ainda me custa.
Apesar de tudo, de toda a injustiça e desconsideração.
Apesar de tudo, hoje sonhei contigo.
E eras tu mesmo. 
Como eras antes.