terça-feira, 20 de junho de 2017

"Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita"

Ainda era pequenina quando a minha mãe abandonou a nossa casa em Pedrógão Grande, ameaçada pelo fogo que se aproximava, comigo ao colo, levando apenas um cofre e as coisas necessárias para cuidar de mim. Foi para o centro da vila, sem saber onde estaria o meu pai, já que sendo médico veterinário municipal, faz muito trabalho de exterior. Na altura, ainda não existiam telemóveis, foi noutra vida. Não perdemos nada, foi só um grande susto. 

Quem me acompanha e me conhece sabe que apesar de ser de uma família que se concentra em Lisboa, sempre vivi na zona centro, devido à profissão do meu pai. A minha mãe chegou a ser funcionária do Ministério da Agricultura, exercendo funções em Ansião, concelho onde actualmente se encontra o teatro de operações que aparece a toda a hora nas televisões. É lá que estão tantos rostos conhecidos a fazer o que podem para ajudar as vítimas deste flagelo.

Estamos no terceiro dia de Luto Nacional. Como quase toda a gente que conheço, estou de coração partido. Cresci com medo do que está acontecer: cresci com medo dos incêndios, cresci com medo de que o fogo consumisse as árvores, matasse animais, destruísse casas. Curiosamente, nunca tive medo que o fogo matasse pessoas porque pura e simplesmente nunca me ocorreu que fosse possível, com todos os recursos disponíveis, que isso acontecesse.

Aconteceu.

Não consigo evitar as lágrimas, a consternação e a sensação de impotência. Estou em Lisboa e ainda não pude ir para onde está o meu coração. Tenho feito o que posso daqui mas é lá, é junto das minhas pessoas, da Paula, da Marlene, da Adelaide, da Filipa, do Justo e de tantos outros, é lá que devo estar. Não quero ver o Leonel pelo facebook nem o Fernando Inácio nos telejornais. É para lá que quero ir, que as minhas lágrimas não servem para nada e tenho que levar as coisas para aquela gente sempre esquecida, que este país com a mania que é cosmopolita e doutorado abandona com as suas reformas miseráveis. E são eles, o povo, que sempre tive o privilégio de conhecer de perto não só pela vida maravilhosa que os meus pais me proporcionaram na província mas também devido à minha vivência como jornalista, que têm sempre tanto para ensinar, para dar, numa generosidade mais delicada e elegante que muito catedrático, muita celebridade e muito novo rico com quem me cruzo.

Estamos no terceiro dia de Luto Nacional e já vi de tudo. Gente que não saberá, certamente, o significado de um Luto Nacional e que não manifesta qualquer respeito pelo que está a acontecer. Gente que nunca quis saber dos bombeiros mas que agora partilha imagens sentidas nas redes sociais. Gente que nem por reverência se mantém em silêncio. Gente que se está marimbando para esta tragédia, apesar de chorarem com pena das vítimas de atentados terroristas noutros países.
Há muitas pessoas mal educadas e que ousam brincar com a situação ou mostrar, sem pudores, que estão muitíssimo bem nas suas vidinhas. Há ainda aqueles que roubam para si o protagonismo da acção e não resistem à habitual gabarolice de quem está a gostar de brincar às caridadezinhas. Ofendem-me. 
Por outro lado, como sempre, também vi a atitude solidária, nobre e comovente de quem dá e se dá porque é o que há a fazer agora. Aqui, onde estou, em Lisboa. Na minha cidade, em Pombal. E esses fazem-me sentir grata e orgulhosa.

Os números ainda não estão fechados, o fogo ainda não está apagado, mas para lá do pesar, há a urgência de ajudar estas pessoas a reconstruir - vidas e casas.

Hão-de ser apuradas responsabilidades, hão-de ser apontadas as falhas. Agora é tempo de fazer, de responder, de dar, de ser. O Estado não está a corresponder às expectativas? Haja comunidade e pessoas porque o que importa é fazer. Há tempo para o resto.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Rendalíssima

SJP
Sai quarta-feira sim, quarta-feira não, no site do jornal cuja equipa fundadora integrei. 

Enquanto jornalista, sempre me privei de dar opiniões ou de me posicionar enquanto cronista, independentemente do tema abordado. Sempre honrei a minha profissão e o seu código deontológico que o brio e a ética são prioridades.

Finalmente sou colaboradora do Pombal Jornal nesta minha mais recente vertente - a de stylist. 

Esta rubrica está pensada há muito tempo mas só este mês a lançámos para assegurar que vai ser útil, leve e interessante para quem a lê.

Chama-se Rendalíssima e é um espaço em que se fala de tudo o que diga respeito à Consultoria de Imagem. Comecei por explicar o que será feito daquele espaço, bem como a minha perspectiva relativamente a este mercado e em breve começam a sair dicas, por exemplo.

Podem ler o primeiro texto aqui e o segundo acolá!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

ver a morte

Não sou daquelas pessoas que anseiam pela sexta-feira mas hoje estou feliz por ter chegado o fim desta semana. Apesar de ter feito muita praia, de ter jantado com pessoas especiais, de ter tido conversas maravilhosas e de terem nascido mais ideias para o meu projecto mais ambicioso, tive noites mal dormidas, dias de ansiedade e vi um homem morrer.

Já vi pessoas mortas, claro, mas nunca tinha presenciado aquele momento exacto em que a vida sai de dentro de um corpo. Ali. À minha frente.

Estava no carro, vinha da Ribeira das Naus a caminho do Cais do Sodré. Parada no semáforo, reparei no cambalear de um homem que rapidamente começou a desequilibrar-se e a tentar apoiar-se numa das viaturas à minha frente. A condutora assustou-se e pouco depois, ele caiu à frente do carro. Já apreensiva, o primeiro pensamento que me ocorreu quis desdramatizar a situação: "Está calor, é natural que as pessoas se sintam mal". Nesse instante, começaram as convulsões e a minha expressão devia ser tão óbvia que o condutor à minha frente, ao sair do carro, gritou-me que não saísse do meu. Houve um momento em que senti que tinha acabado. O INEM chegou minutos depois e não demorou muito até que o tal homem fosse colocado numa maca e coberto com plástico azul.

O trânsito continuou a fluir como se nada se tivesse passado. Eu também segui caminho, entre lágrimas e soluços.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Uma pessoa ouve cada uma...

Rihanna
Gosto da Kiko. Compro apenas vernizes e make up para olhos e boca, gosto da qualidade dos produtos, da durabilidade - um batom que sobrevive intacto a um jantar e a uma noitada tem a minha lealdade - e do facto de ter uma loja perto de minha casa. Até aqui, tudo fantástico. 

No que aos cuidados do rosto diz respeito, continuo a ter a Clinique como bff porque tenho uma pele sensível, mas num acto de rebeldia decidi arriscar tudo e experimentar make up de outra marca. Como nunca um produto da Kiko me fez alergia, vou usando, feliz da vida, que sou dessas que gosta de ter imensa maquilhagem apesar de usar sempre a mesma.

Como tal, sou cliente habitual dessa loja que disse situar-se perto de minha casa. Na semana passada, voltei ao espaço para comprar umas sombras e no momento em que estou pronta para pagar e ir-me embora, eis que sou confrontada com uma promoção para lá de espectacular nos vernizes. A funcionária, muito prestável, mostrou-me que havia uns tamanhos mini com cores muito fofinhas a preços ridículos. Óptimo, certo? Claro. Escolhi alguns. Ela diz-me:

- E um dourado, para pintar apenas uma unha diferente?

Conta quem estava comigo que fiz todo um ar de Blair Waldorf. 
Hesitei.








Fitei-a.









Fiquei calada mais tempo do que o normal, respirei fundo e sorri.










- Não faço isso. Uso nudes, rosas e vermelhos. Todas as unhas iguais.

Paguei e saí. 












Como assim? COMO?
Tudo bem, estratégias de venda e blábláblá, mas não se deve analisar o cliente antes de lhe tentar impingir uma treta qualquer? Isto foi uma ofensa. Um ultraje. How dare you? Por quem me toma? Unha dourada? Uma unha diferente das outras? Mas eu tenho ar de quê? Então mas não se vê? Por algum acaso tenho cara de Sheila que usa unhas de gel com diamantes incrustados e que nem consegue escrever num teclado? Mas estamos a ver com quem estamos a falar? Um dourado quê?! Isto foi como se tentassem vender umas Crocs à Anna Dello Russo. Mas como assim? 

Que fique bem claro que odeio unhas de bairro, daquelas que são tão grossas que têm uma altura muito maior do que seria suposto ver numa unha natural, que odeio cores tipo verde-cocó-de-bebé e que não suporto unhas demasiado compridas. Assim que vejo disso, fico nauseada e com uma ideia muito bem formada acerca do sentido estético de quem usa... por isso, nada de me confundir com essa estirpe.











Fiquei lixada.

terça-feira, 6 de junho de 2017

A Sónia, a Kiehl's e eu também.

Claro que a conversa e o riso prejudicaram a qualidade das fotos!
O final do dia de ontem foi passado na companhia da Sónia Tavares, aquele mulherão poderoso de voz inconfundível e carisma de diva à portuguesa.

Giríssima, simpática e autêntica, respondeu-me que terei de esperar até que volte àquele tom de vermelho maravilhoso e que não cai bem em quase ninguém. Por agora, o look 20s é o que lhe apetece e também o que torna o cabelo mais saudável para futuras experiências.

Estivemos na Kiehl's do Príncipe Real para um lanche informal e muita conversa boa sobre tudo o que apeteceu - os produtos da marca, que a Sónia não dispensa; a sua vida pessoal e, claro, os The Gift. Do gato ao filhote, passando pelo mítico encontro com Dita Von Teese, falámos de tudo um pouco e até tive acesso a informações exclusivas sobre a próxima semana - fãs da banda, fiquem atentos!

A Kiehl's, para quem ainda não se familiarizou, foi fundada por John Kiehl há mais de 160 anos em New York e reúne nos seus produtos os conhecimentos de botânica, cosmética e farmácia. Se no início do século XX, Kiehl's era uma farmácia que comercializava remédios homeopáticos e botânicos, bem como óleos essenciais e os primeiros produtos da marca, actualmente disponibiliza uma vasta oferta para pele e cabelo, baseada na ciência mais avançada e fazendo uso de ingredientes exclusivos e naturais. E sim, há todo um mundo para os homens!

Diria que em Portugal se começou a ouvir falar mais da marca quando Sarah Jessica Parker anunciou não abdicar do seu creme de corpo da Kiehl's. E se antes tínhamos um expositor na Fashion Clinic para comprar a marca sem ter de sair do país ou encomendar online, hoje contamos com lojas no Príncipe Real, no Colombo, no El Corte Inglès e nos Armazéns do Chiado.

Os preços são apelativos e o difícil é escolher apenas o essencial. Todas as embalagens têm um design simples e a organização do espaço facilita a vida ao cliente, já que a organização é lógica e intuitiva. Quanto ao meu produto preferido, é uma loção pore minimizer cujos efeitos se verificam logo após a aplicação. E os cheirinhos bons das linhas para cabelo? Quero tudo.








Curiosidade: em todos os espaços está presente Mr. Bones, um esqueleto que usa bata e óculos e que homenageia o esqueleto que um dos proprietários usava para dar explicações aos clientes aquando das consultas.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

São pérolas.

Estive doente e eu nunca estou doente. O que fiz durante o tempo em que nem consegui trabalhar? Dediquei-me a uma tarefa que me fez rir, sentir chocada, envergonhada. Nos últimos quinze dias, decidi registar os erros ortográficos com que me deparei nas redes sociais. Sem mais conversa, partilho convosco as melhores pérolas:

bombo da corte
É alguém que serve para levar porrada nas bandas filarmónicas mas com um quê de nobreza.
(espreitar aqui)

fan
É uma ventoinha que também é groupie.

constroiem
Porque construir tem que ser à pedreiro. Constroem seria demasiado mainstream.

de mão
Uso esta expressão quando dou uma demão de tinta na parede com as mãos. De mão. Se fosse com uma trincha era de pincel.

flisidades
É o que desejamos a alguém que queremos que seja flis.

num café em quanto conversão
Em que quantidade fazem a conversão da moeda enquanto bebem o café?

comida deteorada
Para quê complicar? Deteriorada tem demasiadas consoantes.

brugesso
Quem escreveu isto era certamente um burgesso qualquer.

enumeras vezes
Enumera-me aí as inúmeras vezes que já tentei ensinar Língua Portuguesa.

nos lugares onde partilhas-te
Porque a gente partilha-se, a gente dá-se, a gente não é egoístas.

eu pousando para a foto
Posar é por si um verbo foleirote. Quando é trocado por "pousar", ainda cheira mais a azeite. Só uma labrega pousa para as fotos.

esta é a minha página e eu usu-a
Tu usas-la e devias ter vergonha na cara e ir repetir a primeira classe.

homanos
Somos todos, não é?

subscrevo por baixo
Eu subscrevo por cima, só para contrariar.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

andando

Já não sentia nada. Nem bom, nem mau. Às vezes, pena. Em alguns momentos, raiva. Todos os dias, gratidão. E os dias eram mais simples, menos intensos, menos emotivos. A turbulência ficou lá atrás, no meio dos destroços. Tinha saudades, por vezes, da tempestade que nascia no peito por causa de nada. Ficou como uma aldeia vazia depois da guerra; só de imaginar o trabalho que a reconstrução viria a trazer-lhe, desistiu. Os ombros caídos, a resignação, o olhar sem aquela excitação dos vivos. Mas bem. Em paz. O barulho do vento sossegava tudo. O silêncio sussurrava-lhe que a aceitação era o melhor dos caminhos. E ela seguia. De que valeria ter vontades, quereres, desejos, se acabaria por acontecer apenas o que tivesse que acontecer? E os dias iam passando, calmos, numa apreciação constante das pequenas coisas, do rio a beijar as margens, dos pássaros a bailar no céu, das pessoas a circular pelas ruas e a enchê-las. Ela, parte da cidade, como os prédios, observando. E lembrava-se dos olhares, tantos olhares que já não se cruzam com o dela. E tinha pena de ter deixado de ser quem era, de ter sido abalroada por tanta brutalidade. E ia andando.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

dos passageiros do nosso comboio.

Vou dizer-lhe que a amo por ser filha de alguém como tu. Que lamento não fazer parte da vida dela. Que tentei. Que a imaginei tantas vezes, que quis que brincasse com os meus filhos, que sonhei com ela quando ainda éramos só umas miúdas.
E tu, quando a tua filha perguntar quem é aquela pessoa, tão presente nas fotos mais antigas, o que lhe vais dizer?
Talvez nem tenha coragem e nem me saia palavra alguma, só lágrimas dos olhos. Se um dia a conhecer, se algum dia a vir, gostava de lhe dizer que a amo sem ter o privilégio de conviver com ela. Que desisti, também. Que preferiste todas as outras vozes à minha. Que ouviste o que te contaram em vez de ouvir o que te quis dizer. Que me desrespeitaste profundamente. Que não te respeitei nem soube entender, na altura certa, que não tinha de aceitar as tuas mudanças porque eram tuas e não minhas. Que todas as pessoas que continuaram contigo, ficaram no fundo felizes com a minha ausência. E que preferiste esse conforto. Preferiste acreditar na personagem criada e não no que o teu coração sabe que eu sou. É como se parte de mim não estivesse comigo, como se me tivessem amputado. Mas compreendo que seja assim apenas cá dentro, que só eu me sinta mutilada. Que só eu sonhe contigo frequentemente. Sempre foste a mais dura de nós, apesar de aparentares essa afabilidade toda. E decidiste que o conselho de alguém que não me conhece como tu me conheces é mais importante que qualquer argumentação minha. Para mim, és um assunto tabu. O contrário não aconteceu. Não tiveste problemas em expor-me. E isso é tão feio, que só algo assim me faria parar de correr atrás de quem não me quer por perto. A vida tem sido estranha. 
Um dia, quem sabe... até lá, que sejas feliz. Absurdamente feliz. Que rias todos os dias, que não te falte um abraço nos momentos menos fáceis, que prosperes em cada passo. Mesmo à distância, vou estar sempre a torcer por ti. Porque mesmo que não queiras viajar aqui, o teu lugar em mim estará sempre reservado. É teu.


terça-feira, 4 de abril de 2017

Passada com o Estado - 2

Com o Estado, mais precisamente com a galhofa que tem sido esta luta intensiva contra o tabagismo.
Vamos partir de uma premissa básica: eu nunca vi nenhum pai de família chegar a casa e depois de ter enfiado um maço de tabaco pelos pulmões adentro, desatar a bater na mulher e nos filhos como se não houvesse amanhã. Agora sim, continuemos:

Os preços aumentam catastroficamente no continente, mas os moradores das ilhas podem comprar o seu cigarrito barato porquê? Não é um perigo se morrerem também?

Não temos zonas de fumadores decentes, porque não se pode com o cheiro - guess what? Eu fumo e não suporto o cheiro a tabaco!

Agora até em espaços públicos ao ar livre me querem chatear? Mas que parvoíce vem a ser esta? Como assim não se pode fumar nas praias? Mas... mas... eu uso cinzeiro na praia e até nem fumo muito por lá, que normalmente está calor e só me apetece fruta e água. Mas... mas... e os ingleses podres de bêbedos podem levar as suas Coronas para a praia e incomodar o resto do pessoal? Mas... mas... e ganzas, ganzas já podem circular à vontade porque alteram o estado de quem as fuma e tornam tudo mais divertido e zen? 
Isto não ajuda os fumadores a deixar de fumar, pá. O que ajuda os fumadores a deixar de fumar é a sua própria vontade. A mim, quanto mais me dizem que não devia fazer, mais vontade tenho de contrariar o mundo. Até tenho uma história fantástica que ilustra bem o caso:

Certo dia, estava a fumar um cigarro, tranquilamente e sem incomodar ninguém, sozinha com os meus pensamentos, perto do jornal onde trabalhava. Fazia uma pausa entre reportagens, numa semana cheia e muito cansativa. Uma prostituta, que se dirigia à redacção semanalmente para publicar o seu anúncio, com quem nunca tinha trocado uma palavra, teve a ousadia de me dizer:
- Cê tá fumando? Olha qui fumá faiz mau prá saúdji...
Respondi imediatamente:
- A SIDA também.

É isto.
Com tanta trampa para limpar neste país, vamos chatear os fumadores. Porque o cancro só aparece em quem fuma, porque o álcool é que é fixe e o que seria de nós se os putos não andassem a conservar os seus cérebrozinhos em cerveja logo a partir dos 14 anos. E porque conduzir depois de fumar tabaco é um perigo, mas valha-nos a erva e o pólen para assegurar a boa disposição.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Passada com o Estado - 1

Tenho para mim que o Estado acha que o povo é completamente descerebrado.
O Estado começa a passar a linha do desagradável a partir do momento em que quer regular questões que dizem respeito apenas ao bom senso. Como se o povo fosse uma cambada de energúmenos sem educação nenhuma, sem pinga de bom senso e precisasse das mais absurdas directrizes para que consiga viver em harmonia numa sociedade organizada.
Passo a explicar: desde que esta parvoíce da lei das prioridades nas filas surgiu, é impossível ir ao Pingo Doce do meu bairro. Apesar de existir uma caixa aberta só para atender os prioritários, eles invadem toda e qualquer fila, exigindo passar à frente dos que, como eu, não são terceira idade, não estão grávidas, não andam com criancinhas ao colo e não são deficientes. 
Eu até já só faço compras online... mas os produtos frescos, faço questão de ir buscar dia sim, dia não, porque tenho esta mania, pronto. Então imaginem-me de alface e abacaxi na mão, talvez também com uma caixa de cápsulas para a máquina de café porque acabou, sei lá, e nisto tenho velhinhas com carrinhos de compras cheios a berrar "EU VOU PASSAR À FRENTE" e a menina da caixa a ordenar ao casal com a criança birrenta e ruidosa com as compras de um mês que me faça o mesmo. Quando finalmente posso pagar a porcaria das três coisinhas que levo na mão, a alface já está em estado de putrefacção e a minha paciência também.
Mas não é uma óbvia questão de bom senso que, ao ver um velhinho caquético e todo curvado, já a olhar para a cova onde vai finalmente poder descansar, eu o deixe passar à frente? É! Mas se ele tiver ali dois carrinhos a abarrotar de mercearias e eu quiser apenas levar uma caixa de pastilhas, tenho que o deixar passar? MAS QUE IDIOTICE VEM A SER ESTA?
É que isto acontece a qualquer hora do dia, porque neste bairro as pessoas fazem procissão até ao Pingo Doce desde a hora de abertura até ao fecho. É impossível descobrir uma hora tranquila para fazer compras sossegada. E eu fico mesmo lixada.
Há dias, uma anormal de uma velhota, toda espigadota e cheia de energia (mais que eu), decidiu perguntar-me, antes de passar à minha frente, se eu estava grávida.
- Eu não tenho corpo de grávida, mas a senhora tem cara de velha. Passe com as suas 1480 embalagens de chá que estavam em promoção, os seus rebuçados, o fiambre e o queijo, o açúcar, os pacotes de arroz, as couves, os enchidos, a carne, o peixe, as batatas... que eu e os meus espinafres temos muito mais tempo de vida disponível para esperar.
Claro que fico com mau feitio, claro que é irritante e injusto. Em vez de se perder tempo com legislação desta índole, deviam educar-se as crianças para que se viessem a tornar adultos bem formados e com valores.

quarta-feira, 8 de março de 2017

na direcção do queixo erguido

sempre que começo a desviar o olhar para baixo e a permitir-me doer por dentro com coisinhas miúdas, surge um alento inesperado, um sopro de brisa quente, para me lembrar que o foco é em frente, na direcção do queixo erguido.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

quando o outro não sabe tudo o que vemos nele

Tenho um amigo, por quem já estive apaixonadíssima, que não sabe tudo o que é.
Não tem consciência de quão bonito é, não imagina como é interessante, não faz ideia de como o vejo.
É um gajo que tem a minha admiração - e olhem que isto é difícil - por ter uma capacidade de trabalho impressionante e mesmo tendo que lidar com imensas responsabilidades, não perde a juventude, o riso, a leveza.
É um puto adulto, não larga os ténis e tem uma voz com que me casaria. É inteligente e antenado, sabia usar o Spotify quando eu ainda não fazia ideia do que raio era aquilo. Gosta de viajar, consegue concretizar ideias, arrisca e é naturalmente simpático. Tem entusiasmo por coisas que me são indiferentes e mesmo assim, não tem pudores em manifestá-lo. Não tenta impressionar-me e isso é tão bom. É divertido, a idade não lhe adicionou o factor cromo. É um amor de pessoa, carinhoso e atencioso. É paternal, tem uma pinta descomunal e sabe fazer tudo. Como todos os homens hetero que conheço, tem dificuldades em expressar-se no que ao plano sentimental diz respeito, mas é transparente. Pelo menos para mim.
É tudo isto, mas tem um defeito enorme: minimiza-se, diminui-se pelo meio em que se insere. Acho que ele acredita na sua desvalorização, como se tivesse que se contentar com o que dizem que ele é e com a vida que criou. Então permite-se ser menos, vivendo um quotidiano que não o satisfaz. Relaciona-se com pessoas muito abaixo do nível dele. Prende-se ao que não o prende.
Nunca demos certo por isso mesmo: ele achou e decidiu que eu merecia melhor. O que ele não sabe é que teria sido o meu melhor. O tempo passou, a raiva também e ficámos amigos. Gosto mais dele agora, claro, que a paixão descontrola e turva a visão. E gostava que ele se visse como eu o vejo.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

s o s s e g o

O ano passado tirou-me tanto. tirou tanto de mim.
Ainda não sei quem sou no meio desta confusão toda e não consigo arrumar a casa.
Como perdoas sem que te peçam perdão?
Como deixas de sentir aquela raiva imensa que te faz descontrolar em lágrimas?
Como manténs a sanidade sem que estejas a mentir?
Como começas a viver sem que tenhas de te distrair?
São tantas dores, são tantos cortes, estou toda em ferida.
Estou cansada.
Quero o meu Algarve.
Quero um mergulho no mar.
Quero aqueles abraços sentidos.
Quero a areia nos pés e o sal no cabelo.
Quero sossego.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O que fariam?

Sempre que me envolvi em algum projecto profissional, fi-lo com toda a seriedade. Acredito que quem faz deve fazer bem feito, seja o que for, com os meios que tiver disponíveis. 
Já fui criticada por ser tão séria. Paciência. Não sei trabalhar de outra forma. Esteja a acompanhar um cliente numa sessão de Personal Shopping ou a escrever uma reportagem sobre a aplicação de fundos comunitários num município, prefiro pecar pelo excesso de zelo do que pela descontracção em demasia. 

Confio nas minhas capacidades e é exactamente por delas ter consciência que sou perfeccionista. Gosto do brio que pauta a minha conduta e orgulho-me dele. Espero continuar assim.

Desde o início da minha vida enquanto trabalhadora que soube separar bem as águas, deixar questões pessoais à margem para que simpatias, antipatias ou opiniões minhas não interferissem naquilo que produzo. A minha formação académica em Jornalismo contribuiu muito para que assim me comportasse, apesar de ser extremamente emotiva. 

Desse modo, nunca senti como complicada a tarefa de vestir as diferentes personagens em que me desdobro consoante o contexto em que me encontro. A Ana profissional é ponderada, ligeiramente fria, dura consigo mesma, exigente com os outros e distante, muito mais que a Ana fora dos horários de trabalho.

Pela primeira vez, sinto que talvez não esteja apta a aceitar um desafio profissional por questões pessoais. Melhor, sinto que tenho medo de arriscar demasiado e pôr em causa a qualidade do meu trabalho pela possibilidade de vir a permitir que assuntos do foro pessoal nele interfiram.

Será possível manter a distância quando já nos envolvemos emocionalmente com a pessoa com quem estaremos em contacto directo frequentemente? Será possível manter a frieza? Se a pessoa nos desperta ainda algum tipo de sentimento negativo, há como manter o profissionalismo? Quem me garante que a meio caminho do objectivo traçado, não me descontrolo e mando tudo à fava? Como posso ter a certeza de que a raiva não me vai fazer estragar tudo e manchar o meu currículo?

O caso é grave: eu sinto o coração disparar de raiva se pensar muito no que aconteceu, no que aquela pessoa me fez. Irrito-me se me lembrar que nem sequer tentou desculpar-se. Não suporto não sentir arrependimento do outro lado, apenas a ousadia de achar que pôde tratar-me como lhe apeteceu, magoar-me sem que eu merecesse e agora regressar sem dizer com todas as letras que sabe que teve o atrevimento de fazer merda e agir com toda a irresponsabilidade e leviandade possíveis, ferindo alguém cuja atenção teve a sorte de receber.

Acho que as minhas últimas linhas expressam bem quão difícil tudo isto me parece. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Pois

"Pois" é um vocábulo que se assemelha a um buraco negro. Conhecido por todos, fala-se dele sem que se consiga defini-lo com exactidão. Complexo mas banalizado, o "pois" é a fuga perfeita para deixar morrer argumentações, conversas, discussões. Apesar da sua categorização gramatical existir, a maioria da população que faz uso da Língua Portuguesa como seu idioma oficial não está apto a classificá-lo morfologicamente, apesar de recorrer à palavra mais desinteressante do léxico nacional inúmeras vezes. A consequência? Dissertações como esta em 0,001% dos casos.

Foi isto que respondi quando me responderam com um "pois". 
Não gosto de "pois".

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

bored.

SO bored. Ninguém é interessante e toda a gente acha o máximo o que eu acho uma seca.

Não sou convencida, era mesmo óbvio.

Leighton Meester
Confesso que a certa altura julguei que era gay. Ele olhava, olhava, olhava tanto... mas vir falar comigo, 'tá quieto. 

Por motivos profissionais, estou constantemente a lidar com pessoas novas. Desta vez, além de muitas pessoas novas, havia uma em especial que era a minha cara. E isso não é frequente, que eu sou miúda para não achar piada a ninguém. Não era novo como eu, não era magro, não era demasiado giro. Era alto, tinha uma barriguinha eu não sou fã de corpos photoshopados e rugas de expressão. Não demorou até que o visse e o achasse digno da minha atenção. Comentei com a minha amiga que a pessoa me estava a fazer olhinhos e em cinco minutos já sabia o nome, quem era, o que fazia ali e que não tinha aliança. 

Ele olhava, eu olhava também. Sentia alguém a fitar-me e quando dava por ela, era ele. Às tantas, já sorria descaradamente e achei que era inevitável - ele teria de falar comigo. Nada. Horas depois, voltei para casa sem mais um episódio engraçado para contar à Mana Lamparina. 

Nos dias seguintes, o filme repetiu-se. O homem só não ficou com dores no pescoço porque Deus foi misericordioso e o quis poupar. Hoje sei porquê.

Já estava cansada de tantos olhares e temi pela minha saúde ocular, que o estrabismo sempre me assustou, pelo que decidi abordá-lo eu, ou a história não avançava (sou um bocadinho ansiosa, vá). Enchia-me de mim, o nariz bem empinado, a atitude de uma diva... e perdia a coragem sempre que me propunha a fazê-lo. Não conseguia cumprir o meu objectivo. Mesmo caminhando toda confiançuda na direcção dele, havia um momento em que ouvia a minha consciência dizer-me que aquilo era uma parvoíce e que se estivesse realmente interessado, o barriguita, como amorosamente foi apelidado pela minha amiga, não perderia a oportunidade de falar comigo. Recuava e passados segundos, lá estava eu a sentir-me observada. E sim, era mesmo sempre ele. Memorizei deixas para meter conversa e sempre que uma oportunidade surgia, era ver-me fugir a sete pés. Hoje sei porquê. 

Quando o trabalho terminou, vim-me embora com a certeza de que tinha escolhido a postura correcta. Não dou confiança a qualquer um e uma mulher como eu merece que um homem tenha atitude suficiente para não estar com rodeios. O contrário não faria o meu estilo.

"O mundo é tão pequeno, mana... se tiveres que te voltar a cruzar com ele, vai acontecer", disse a Mana, quando entrámos no restaurante, para de seguida arregalar os olhos e desatar a rir. Reconheceu-o pelas fotos que lhe mostrei. "É mesmo a tua cara", acrescentou. Ali estava ele, sentado, sozinho, num local bem longe daquele onde tínhamos passado os últimos dias. Não resisti. Sorri-lhe. Fui à mesa dele e depois de uma conversa profissionalona uma desculpa esfarrapada, dei-lhe um cartão de visita. Tão giro, pá. Voltei para a minha mesa, a rir que nem uma perdida. "Ele vem aí outra vez", disse-me a Mana. Tinha ido ao carro buscar um cartão seu para me dar.

No dia seguinte, após uma pesquisa simples, descobri que tem uma mulher e um filho. Foi por isso que Deus o poupou do torcicolo, porque ele estava a ser um homem bem comportado. E foi por isso que nunca fui capaz de dar o primeiro passo, perder a timidez e dar uma de gostosa, estava a ser poupada de uma figura de otária deprimente. Só vos digo: quero um marido assim.

São tantos os cromos que sendo casados e sabendo que eu sei do seu estado civil tentam meter conversa e fazem convites despropositados, que a atitude séria deste gajo ainda me deixou mais embevecida. A minha fé na humanidade aumentou um bocadinho.

E os cartões que trocámos? Bom, se algum dia for abandonado, sempre tem o meu número!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Gosto de pessoas que dizem o que pensam, que pensam o que dizem.

Conheço-o como se conhecem todas as pessoas com quem partilhamos as ruas da cidade onde vivemos. Sabemos quem é o outro durante longos anos, uma vida inteira, mas não conhecemos a sua alma, o que diz o seu espírito, o que lhe dita o gosto e que experiência o faz ser quem é no presente. Na verdade, sabemos-lhe o rosto e pouco mais. Era assim que o conhecia, com o acrescento de que sempre nutri a mesma simpatia por ele. 

Há semanas, do alto da sua idade maior que a minha, veio falar-me. Foi a nossa primeira conversa para lá dos bons dias, boas tardes e boas noites. Fez-me sentir pequenina, por vezes tímida e muito grata. Disse-me que me lia, confessou gostar de me ler. Acima de tudo, revelou estima pela menina que ainda sou, que me esqueço de que ao escrever, sou lida. E alertou-me para os perigos de tanto me expor, abrindo portas para quem só me lê por vã curiosidade, como as velhas que ficam à janela a controlar as entradas e saídas da vizinha. Avisou-me para a maldade desses leitores, que inferem ilações das minhas entrelinhas, deduzindo erradamente a meu respeito e aproveitando todo esse imaginário para me prejudicar. 

Gosto de pessoas que dizem o que pensam, que pensam o que dizem. Gosto de pessoas francas e que me conseguem ver para lá da personagem de mim. Mas a verdade é que se pensar nisso, nessa massa homogénea que retira das minhas palavras o que lhes convém por um qualquer interesse mesquinho, perderei a essência que me faz ser, que me faz escrever diariamente no meu livro cor-de-rosa, que me faz deixar fluir, sem pudores, o que me sai do coração para as pontas dos dedos.

Não sei moderar mais do que já modero. Não sei viver em contenção. Gostava de saber como se tem cuidado com o vento, como se prende uma onda, como se queima fogo. Não sei, talvez nunca venha a saber ser de outra maneira. Talvez um dia aprenda a ser cautelosa. Até lá, que os pequeninos que não me lêem com a pureza com que escrevo possam vir a aprender um pouco mais sobre os dias que gastam interessados em mim e não no que lhes deveria ser importante. É que ao procurarem nas minhas letras todo um ânimo para as suas horas mortas, estão a deixar passar oportunidades de existir no seu próprio mundo, para ficar simplesmente a observar o meu.

(às vezes lembro-me de como foi)

Caroline Wilson
Lutar contra o arrependimento de ter sido tanto para quem é tão poucochinho é das maiores dificuldades que sinto.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O DJ, o cronista e eu.

- Este gajo passa ganda som! - foi exactamente desta forma que as palavras saíram. Com a espontaneidade bruta e crua de quem está absorvido no presente. Aquela noite tinha sido maravilhosa porque as músicas eram perfeitas, umas atrás das outras. Ele adivinhava o que eu queria ouvir e isso é tão, tão raro. Sabem quando nem apetece interromper a música com conversas? Quando nem apetece abrir os olhos? Foi assim enquanto aquele DJ fez da cabine o seu atelier. Não me esqueci do nome dele e nunca mais o vi em lado nenhum. Desencontros.

Anos passaram até que descobrisse e começasse a seguir atentamente um determinado cronista de um jornal nacional, que veio juntar-se aos únicos dois cujos textos não perco, sendo um deles o meu querido MEC. Não leio mais crónicas porque ninguém me prende verdadeiramente, mas aquele fulano, cujo nome não me remetia para referência alguma, emanava uma vibe que me agradou desde o primeiro parágrafo. Lia-o sempre, gostava sempre do conteúdo, da forma e mais tarde, timidamente, comentei-o - algo que nunca gostei particularmente de fazer, nem em blogs. 

Passou-se imenso tempo até que concluísse que o tal DJ e o cronista eram a mesma pessoa. E foi inevitável o espanto e a consequente reflexão acerca de como é interessante que o produto daquela mente me atraia, mesmo sem a consciência de que quem está por detrás das músicas escolhidas ou dos caracteres debitados é o mesmo homem. O que aquela pessoa faz chegou até mim sempre de uma maneira bonita e essa coincidência pareceu-me tão curiosa que, incentivada por alguém com quem a partilhei, não resisti: cheia do meu atrevimento, pus o protagonista a par da sua história em mim. 

Decidi-o não só porque o elogio é subestimado, como também por saber como é agradável quando me fazem sentir que o que fiz foi bom, que foi entendido e que tocou. Infelizmente, é mais fácil criticar só porque sim ou desvalorizar qualquer forma de expressão que seja díspar da nossa. 
E porque a Vida tem especial prazer em surpreender-me, não demorou até que depois desse rasgo de ousadia, tivesse a sorte de me encontrar ao vivo com o DJ que é cronista, por mero acaso e com a certeza de que aquela pessoa é mesmo como a lia: alguém com quem passaria horas à conversa, porque me faz sentir curiosidade. E isso é tão, tão raro.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

MODAAFRICA 2017

Contei-vos aqui que durante o mês de Janeiro - e que longo e agitado foi este mês! - estaria envolvida no MODAAFRICA. O evento foi mais que um sucesso, um orgulho para todos os que integraram a sua organização.

Trata-se de uma iniciativa da designer portuguesa Sofia Vilarinho, que pretende promover a moda sustentável e fomentar sinergias entre indústria e comércio de moda socialmente responsável, dando visibilidade a marcas e estilistas de origem africana.

Por outras palavras, imaginem uma fashion week com todos os apontamentos de estilo inerentes a um momento de celebração de moda, partilha de criatividade e demonstração do que pode acontecer se alma e trabalho manual se unirem num só, mas com uma aura cultural africana fortíssima.

Foi em Lisboa, no Instituto Superior Técnico, que se transformou num palco para personalidades distintas, onde os vários criadores permitiram vislumbrar todas as possibilidades da moda afro: por vezes sombria, muitas vezes em explosões de cor, repleta de influências europeias, de raízes quentes e de cortes arrojados.

Os meus desfiles favoritos? Adama Paris, do Senegal, cujas fotos podem espreitar ali, e Liz Ogumbo, a designer do Quénia que também é cantora e que me prendeu com o primeiro modelo e que podem ver acolá.


Há tanto para dizer sobre o que foram os dias 21 e 22 de Janeiro que me parecem escassas as palavras e pobres os elogios. Em todos os responsáveis do backstage, nos magníficos patrocinadores, nas pessoas com quem trabalhei directamente, notei um profissionalismo exemplar, uma simpatia adorável, uma atitude que só pode ter quem realmente gosta do que faz.

Um dos sponsors, que esteve ao lado do projecto pela segunda vez, criou um vídeo que revela muito do ambiente vivido no MODAAFRICA e que me parece ser um excelente resumo do evento.



Se não conseguirem visualizar acima, podem ver aqui, na página da Adega Mor, que marcou presença com os seus vinhos maravilhosos (claro que eu não resisto a um branco, nem em trabalho!).

Apesar de ser um evento de acesso gratuito por guest list, este ano o MODAAFRICA aliou-se a uma causa social e foram angariados fundos que revertem a favor do AAA-Atelier Alfaiates Africanos. O objectivo deste atelier é nobre e merece a vossa atenção.

Se ainda não o fizeram, podem seguir o MODAAFRICA no Facebook e no Instagram, onde são partilhados vídeos e conteúdos interessantes sobre o projecto, para ficarem a par de tudo o que foi este MODAAFRICA'17 e de tudo o que será a próxima edição.

Sinto-me grata pela oportunidade de participar de algo tão bonito. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

ténis&casamentos


Uma amiga pediu-me opinião: "O que achas de usar ténis para ir a um casamento?". Esta é uma conversa que dá pano para mangas, gera controvérsia e não pode ser resumir-se a um simples nem penses nisso nem a um claro que sim.

Primeiro, há que ter em conta que um casamento é, por norma, uma ocasião que exige formalidade no traje, cumprimento de protocolos e noções de etiqueta que não podem ser ignoradas. Seria de mau tom, por exemplo, uma convidada usar um chapéu se a mãe da noiva não o fizer. É proibido vestir de branco, por ser um exclusivo da noiva. Do mesmo modo, é impensável escolher um look em preto total num momento como esse, em que a celebração pede alegria e não luto. 
Para não desrespeitar quem nos convida a fazer parte de um dia tão especial, é imperativo ter esta certeza de que a boa educação não tem nada de antiquado e de que a elegância não se encontra apenas nas roupas que se escolhem - mas que elas dizem bastante dos modos de cada um, é inegável.

Posto isto, antes de optar por usar calçado de cariz desportivo e tão descontraído como um par de ténis, é necessário perceber de que tipo de evento estamos a falar. Se se tratar de uma cerimónia muitíssimo formal, será certamente inadequado arriscar. Por seu turno, se a descontracção caracterizar a celebração, existe porque estamos neste século maravilhoso a possibilidade de conciliar o conforto de uns ténis ao outfit festivo, que deverá ser escolhido tendo em conta o horário em que se realiza o casamento, a época do ano, o biótipo de quem o veste, a sua personalidade e uma variedade imensa de condicionantes que resultam na necessidade óbvia de recorrer aos serviços de uma stylist. 

Se após todas estas considerações se concluir que de facto é possível levar esta vontade avante, há fórmulas para fazer funcionar um coordenado smart casual com apontamentos chic que se enquadrem na ocasião.

O primeiro passo é a escolha dos ténis, claro!

Quanto mais simples, melhor. Quanto mais clássicos, melhor. Quanto menos volumosos, melhor. 

Modelos em branco ou preto são quase sempre a melhor opção.

A ideia é que não pareça que calçou a primeira coisa que viu à frente porque torceu o pé com os saltos que tinha pensado levar. Além disso, não pode haver o mínimo vestígio de desleixo: os ténis devem estar imaculados para que possam ser usados numa ocasião tão especial. Além disso, não devem fazer lembrar ginásios, maratonas ou campos de basketball, daí ser preferível evitar as listras de lado (como nos Gazelle ou nos Superstar, da Adidas) e os canos altos.




Se estiver plenamente segura do seu estilo, os básicos com um twist também podem ser uma escolha acertada. A ideia é que seja um modelo clássico, à semelhança dos que se encontram na imagem anterior, mas fabricados num material distinto, numa cor diferente do preto ou branco, estampados ou com apliques.

Pense em ténis simples com apontamentos trendy - é disso que estamos a falar.




Os metalizados são uma opção interessante, já que aliam a sofisticação do brilho do ouro ou da prata às linhas simples e desportivas de um calçado confortável por excelência.


Para usar ténis com classe e de uma forma actual é necessário que todo o conjunto exale personalidade, atitude e cuidado. O objectivo é que os ténis sejam tidos como uma escolha consciente e não como um desenrasque de última hora.
Deixo abaixo exemplos de como transformar este conceito em algo usável:


com saia midi
Uma saia midi numa cor sólida pode funcionar com ténis, principalmente se conjugada com alguma peça com brilho. No exemplo acima, o top em lantejoulas dourado cumpre essa função e o blazer branco confere o acabamento polido, imaculado e formal q.b., equilibrando o look descontraído que os ténis aplicam.



 com um mix de texturas 
Neste look, a exuberância de um casaco com textura e cor ricas e o excesso de brilho do top e da saia são suavizados pela simplicidade dos ténis. Este modelo tem a particularidade de unir o tom de uma parte do outfit ao material de outra, criando uma harmonia inesperada.



com um sleep dress
Ao sobrepor um sobretudo de inspiração masculina, equilibra-se o excesso de feminilidade de um vestido deste género e garante-se a modernidade do look sem ceder à vulgaridade. O uso de uns ténis cheios de embellishments só é possível se forem seleccionadas peças simples como as que protagonizam a imagem acima. 



com um sleep dress comprido
Qualquer silhueta é valorizada se um vestido comprido for aliado a um casaco curto. Este modelo simples numa cor sólida é ideal para usar com ténis mais chamativos. O excesso de simplicidade de umas peças pode e deve ser compensado com a complexidade de outras.



 com um jumpsuit culotte

O jumpsuit deverá ter um corte impecável e pode ser a solução mais confortável sem que se abdique do aspecto composto que se pretende obter num casamento. O truque é adicionar acessórios que emanem aquela elegância tão simples como discreta. Assim os ténis serão mais um elemento do outfit e não o seu ponto fulcral.


O mais importante é que se sintam confortáveis e confiantes relativamente ao que escolhem vestir. E o melhor truque para não errar? Olhar para o espelho e pensar: "Quando vir as fotos deste casamento, daqui a dez ou vinte anos, vou gostar ou achar ridículo?".

Dicas extra: 
- se tiver perna grossa, evite os ténis. Se não quiser mesmo abrir mão deles, opte por um modelo num tom semelhante ao da sua pele ou bastante decotados - quanto mais subidos, pior.
- as peças que não mostram os joelhos são sempre mais elegantes e por isso criam um resultado mais harmonioso quando conciliadas com ténis.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

meia palavra basta.

Descobres que é altura de abraçar a pessoa em que te tornaste. Sentes, ainda que te doa, que é hora de deixar definitivamente para trás tudo o que só ocupa espaço com negatividade. Não vale a pena insistir quando é mais simples - será sempre mais fácil - seres a culpada de todos os males do mundo. És tu, com essa tua personalidade vincada, que por seres tão transparente, por não abdicares daquilo em que acreditas, que és rotulada de vilã. Já devias ter-te habituado. 

Até podes ser a única que perdoa quando diz que perdoa - está resolvido e segues em frente, abres a porta e recebes em tua casa, com um manjar que preparaste com todo o amor e dedicação. 

Até podes ser a única que resolve os assuntos como gente crescida, apenas com quem de direito, e não corre a espalhar por qualquer um que te apareça à frente os detalhes de uma relação que não lhes diz respeito, por não ser deles. 

Até podes ser a única que tem em conta que do outro lado está sempre um ser humano, com sentimentos, ideias, emoções, verdades diferentes das tuas. 

Até podes ser a única que age com lealdade. 

Até podes ser a única que se preocupa, que está lá quando é preciso uma mão amiga, um desenrasque com uma boleia, um ouvido, um "tem calma, tudo se resolve". 

Até podes ser a única a ter graves motivos para se sentir magoada. 

Até podes ser a única a ter vontade de explicar coisas pequenas que para os outros são autênticos gigantes. 

Até podes ser a única a ter noção de que és crescida e não deves satisfações da tua vida privada a ninguém. 

Até podes ser a única a orar por eles, a desejar-lhes bem, a querer que tudo lhes corra de feição. Não interessa. Será sempre mais fácil apontar-te o dedo. Já te tinham dito que ia ser assim. Mas que isso não te irrite, não te fira, não te faça gastar lágrimas. É que já sabias que ias ter aflições por cá. Também sabes o que tens que fazer: tem bom ânimo. E para bom entendedor...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

tempo

Tinha pensado tirar a primeira semana do ano para manter o ritmo acelerado e fazer aquilo que tenho feito melhor ultimamente: trabalhar. Trabalhar muito.

Os meus planos caíram por terra. Primeiro uma dor de garganta, depois o corpo dorido e quando dei por mim, toda eu era febre. Olhos semicerrados e o adormecer em frente ao computador, tentando cumprir aquilo a que me propus.
A certa altura, desisti. Dei-me por vencida, que a gripe pede medicamentos e a pedrada com que fico não me permite sequer sair de casa, da sala, do sofá, do casulo que criei com mantas e almofadas.

Acho que o meu corpo arranjou esta gripe para que eu parasse. Talvez precisasse de descanso. E eu, que não gosto de me sentir imobilizada, usei esta semana para fazer algo que não fazia há muito tempo: pensar. Pensar no que vai dentro de mim, no que quero, nesse meu lado idealista e dado ao vaguear por entre as ideias, os sentimentos e as emoções. 

Redescobri dores que julgava ter aniquilado, senti saudades que não poderia imaginar ainda existirem cá dentro, percebi o que andei a fazer por entre tortuosos caminhos que não me levaram a lado nenhum. Percebi porque comecei certas viagens, porque me deixei levar e onde perdi o amor que digo que já não tenho para dar. Lembrei-me de tudo com clareza.

Só agora o poderia fazer, claro. Quando estamos no meio da tempestade, não podemos perder tempo com coisas complexas, porque o importante é protegermo-nos do frio, do vento e da chuva. Vamos andando, parando por debaixo do que nos cubra um pouco, tentando encontrar refúgios e abrigos. Agora que o Sol começa a dar sinais de vida e a entrar, com os seus fios de luz, nesta casa, posso finalmente perceber tudo o que não pude ver enquanto fugia da intempérie.

E afinal, foi bom tirar um tempo.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A crueza não é só perda, mas também o ganho da clarividência.

Foi dor. Pranto, a alma a querer sair-me pelo gemido. Foi angústia. Gritos mudos, a raiva com que a impotência me entrou em casa. Passos pesados, ombros caídos, caminhos demasiado longos para o cansaço que senti. Quis parar, muitas vezes. Quis deitar-me no chão para sempre, até que o tempo me fundisse com a terra. Quis fugir em desespero. Quis romper a película que me separava da sanidade. Quis que me dessem descanso. Sempre que quis alguma coisa, a Vida, já com piedade de mim, deu-me ocupações.

Tomei conta de quem pude tomar conta. Abracei, limpei lágrimas, ouvi, limpei ranho e encostei rostos molhados ao meu peito de mãe sem nunca o ter sido. Dei a mão, deixei que adormecessem encostados ao meu corpo quente, cozinhei para eles, ouvi-os chorar, gritar, balbuciar o que o espírito dizia mas que as cordas vocais não traduziam. E no fim, de tanto me dar, esvaziei-me. Dei por mim naquele caminho longo, sendo mutilada a cada passo, mas já sem o meu aconchego cá dentro, sem brilho no olhar. 

E sempre que quis alguma coisa, a Vida, já com piedade de mim, deu-me ocupações.

Sempre soube que era forte, mas ninguém me tinha contado que podiam quebrar a nossa estrutura. Mesmo assim, continuei, um passo depois do outro. Cada vez mais perdas, cada vez mais dores, cada vez menos lágrimas.


Por entre a aridez do que fui observando, experienciando e sentindo, houve pequenos rasgos de amor. Como escrevi algures, flores delicadas que surgem por entre as pedras, resistindo às mais duras tempestades. Permanecem ali, embelezam apenas por existirem, por estarem, por serem. 
Por entre tudo o que perdi, por entre todos os que perdi, com ou sem morte física, houve um renovar da flora ao meu redor. A crueza não é só perda, mas também o ganho da clarividência. 


Despi as roupas antigas e sou outra. Ainda me estou a redescobrir, que ninguém volta da guerra igual. Sou outra pessoa e não me reconheço em tantas atitudes e comportamentos. Estou menos princesa, mais mulher, mais real. Já não me esforço. Já não me dou. Já não me rio tanto. Estou mais fria, não acredito em nada. Respondo à mágoa com silêncios. Não quero cumprir obrigações. Dou mais atenção ao meu querer. Amo mais os meus. Perdoo mais, quando foram pequenos detalhes a incomodar-me. 

E depois, depois abre-se um novo livro, mais páginas em branco para preencher com termos novos e enredos menos negros. Quero um ano novo com riso, que saudades que eu tenho de rir todos os dias. Quero um novo ano com cores alegres, aventuras com finais felizes e abraços que não sejam de consolo.

Para vocês, quero um novo ano como o desejam.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

23 de Dezembro de 2017

Desde Outubro que não vos escrevia. Desde Outubro que aconteceram muitas coisas, imensos acontecimentos por dia, muitos dias intensos.

A minha vida profissional não me deixou grande tempo para o lado pessoal, nos últimos meses. A colaboração com a Creative Academy trouxe um ritmo alucinante às minhas semanas, senti-me tão exausta como grata. Na verdade, os meus trabalhos tornaram-se no meu estilo de vida, na medida em que não sobrou espaço para os momentos com a família, com os amigos ou com os meus gatos. Não cozinhei tanto, não escrevi tanto, não li tanto. Não pude ir a muitos jantares, cancelei muitos cafés e fui poucas vezes ao cinema. Tive poucas tardes para não fazer nada, muitos serões de fim-de-semana agarrada ao computador a trabalhar para as minhas clientes de Consultoria de Imagem, muitas sessões de personal shopping após longos dias na academia, para chegar a casa sem forças para mais que um banho e cama. Quase não vi televisão nem passeei pelas ruas da cidade.

Houve pessoas com quem consegui ir estando ou conversando, aqui e ali, principalmente aquelas com quem partilho projectos profissionais que pretendo desenvolver já a partir do próximo ano.

Sinto que, no que ao nível pessoal diz respeito, estive em stand-by. Perdi momentos muito importantes em que desejei estar junto de pessoas de quem realmente gosto e a quem falhei, por causa do trabalho. Estive demasiado cansada para conseguir convidar a minha amiga que está magoada comigo para passarmos um bocado juntas. Perdi disponibilidade.

Por outro lado, ganhei muito. Como em qualquer experiência laboral, ganhei tarimba e a certeza de que sou mesmo versátil. Fiz tanto, que ganhei também, além de mais um item no currículo, mais orgulho na mulher que sou. Fiz o que pude, o que consegui e o que sabia. O que não sabia, aprendi. Ganhei pessoas, tantas, tão maravilhosas. Desde o primeiro dia e até que me queiram por perto. Aprendi lições importantes, relembrei como é bom ser quem sou.

Hoje é o meu último dia enquanto colaboradora da Creative Academy. Confesso que já deixei escapar uma ou outra lágrima, que vou sentir falta de cada um dos meus colegas. O que vivemos nesta empresa é de uma intensidade impressionante, pelo que é impossível evitar que cada um deles não me marcasse de um modo especial. Tive de tudo: uma confidente que quis proteger, uma companheira de equipa com quem partilhei risos e trabalho em parceria, uma para me mimar, um para me fazer rir, uma para me salvar o dia e abraçar-me quando precisei, uma para me aquecer o coração com um chá, outra para me dizer verdades que precisei de ouvir, uma com quem dividi stress e ansiedade...

Está a fazer-me confusão abrandar o ritmo, mas a minha alma pede-me que dê tempo ao que quero construir, que crie espaço para que entre tudo o que de bom há-de chegar. E eu vou.

A partir de hoje, estarei de férias, dedicando uma semana a tudo o que é realmente importante. Em Janeiro, desempenharei funções enquanto Social Media Manager da Moda África. A partir daí... bom, a partir daí ainda é segredo, mas conto assim que puder.

Embrenhada entre a Comunicação, o meu grande amor, e a paixão pela indústria da Moda, vou definindo o meu caminho com a frescura de uma miúda entusiasmada e a experiência destas três décadas de mundo e dos meus longos sete anos enquanto adulta trabalhadora.

Terei certamente tempo para escrever no meu lampas, que também ficou na prateleira.

Entretanto, deixo-vos, como sempre, os meus votos de Feliz Natal e o desejo de que no próximo ano estejamos mais presentes aqui. Eu deste lado e vocês, desse!

Não se esqueçam de dar prioridade ao que mais importa: o que está dentro do coração.

Até já!

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

primeira segunda-feira de outubro

hoje dói-me tudo, hoje choro a despedida de algo que terminei em mim. matei em mim. rasgo de mim. em simultâneo, assusta-me a frieza com que me sinto lidar com o que mirrou cá dentro. a minha postura hoje faz-me lembrar o rosto do meu pai quando estamos num funeral de alguém querido. ele chora por dentro, o semblante fica carregado, mas não se desfaz num pranto inconsolável. já não me sentia pedra, fria e dura, há muito tempo. já não me sentia esta mulher irascível há muito tempo. já não permitia que os meus instintos mais básicos me comandassem há muito tempo.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O que muda com os 30

SJP
Os trinta são os novos vinte e continuam a perguntar-me onde estudo... mas um ano depois de ter entrado nesta casa, já posso dar-vos um lamiré do que realmente muda:

papos nos olhos | Noites mal dormidas já deixam rasto no rosto. Os olhos inchados não enganam ninguém e nem o melhor dos cremes consegue apagar os vestígios da falta de sono. Sinto-me um peixinho destes de cada uma das vezes em que me armo em crédula e espero que o creme para o contorno ocular faça milagres (ajuda muito, btw).

pele sensível | Sair à noite e estar exposta a ambientes quentes e com fumo funciona para mim como andar de metro: a minha pele simplesmente não gosta. As impurezas aumentam os níveis de oleosidade e por isso, volta e meia sou obrigada a fazer máscaras de argila, caso não queira parecer o abdominal de um gajo da Casa dos Segredos. Além disso, tenho medo de pontos negros e afins.

dores nos pés | Não há cá noitadas inteiras dançando alegremente sobre 15 centímetros de saltos agulha. Não há dias de compras em cima de sandálias altíssimas. Não há pão p'a malucos. É uma chatice ter que pensar constantemente em aliar conforto à elegância, mas como consultora de imagem até me ficaria mal dizer que não gosto do desafio, certo?

retenção de líquidos e inchaço | Uma pessoa anda um bocadinho a pé, vai a ver e já não tem tornozelos. Um diazito sentada à secretária e eles insuflam, qual Kim Kardashian durante a primeira gravidez. São as tiras das sandálias que apertam, as sabrinas que vincam, não se aguenta.

gordura muda de sítio | Surpreendente. Antigamente o foco das gorduras eram as minhas ancas, o meu rabo e as pernas. Agora fica ali tudo condensado na barriguinha, podendo até criar pneu. Fico louca.

aceitação | Já sabemos quem somos, que características fazem de nós este ser admirável. Pessoalmente, já uso peças que mostram as pernas que não são como as da Naomi - e então? Já percebi que as maminhas menos grandes também são o máximo e abdico do uso de soutien de vez em quando, mesmo para sair de casa (dependendo do que escolhi para vestir, claro). Há vestidos que funcionam muitíssimo melhor sem quase nada por baixo, pareço sempre mais magra e o conforto é imensurável.

já não estás para merdas porque sabes o que não queres | Ele não é aquilo que nós queremos? Não há cá tretas, fiofós nem gaitinhas - baza! Não há desculpas para desleixos, indecisões ou tangas pseudo-traumáticas. Ou quer ou não quer. Ou é ou não é. Cá merdas...

tens cuidados contigo que não pensavas ter | Pelo sim, pelo não, apostamos nuns tratamentos para o cabelo que vem aí o Inverno. Bebem-se litros de chá de cavalinha para ajudar na treta da retenção de líquidos, marcam-se drenagens linfáticas e ainda uma sessão de osteopatia que não posso com as dores nas costas. 

divertes-te com coisas nada divertidas | Arrumar a casa, cozinhar um monte de coisas "só para depois não ter que pensar muito no que vou fazer para o jantar... assim os brócolos já estão cozidos!", ficar no sofá enrolada numa manta a ler posts como este.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

do arrependimento e de como dói

Sempre preferi arrepender-me do que faço para não ficar com arrependimentos quanto ao que não fiz. A verdade é que raramente me arrependo de algo, porque acredito que se decido fazer alguma coisa, isso deve-se à existência de um motivo. Há sempre uma razão que justifica e valida o meu comportamento ou a minha atitude. Desta vez foi diferente: nem o motivo me livrou do peso que só quem se arrepende pode sentir.

Valeu-me apenas ter um Deus que me deu como Amiga alguém muito especial, que me chamou até à superfície da razão, que com franqueza pôs as cartas na mesa e que por me conhecer por dentro tão bem como eu me conheço, me fez ver. Fiquei à nora, porque um 6 também pode ser um 9 se for visto ao contrário. E ela ajudou-me a ver ao contrário. Consegui ver-me do lado de fora e senti as minhas falhas mais profundas. Doeu. Foi como se me abrissem a sangue frio.

E depois de ter perdido tanto este ano, senti o pavor de não querer perder também quem está vivo. Então lembrei-me das palavras da Mana: "Não precisas de ser essa pessoa para o mundo inteiro. Há quem não mereça essa versão."

Hoje sinto-me grata por ter quem considere não desistir de mim mesmo depois da manifestação da minha agressividade. E mais grata ainda por ter entendido que não posso ser sempre a dona da razão. Que ser tão intransigente e radical só por defesa, só por medo de me magoar, só porque fugir é mais fácil ou confortável, não me trouxe segurança. Que esta frieza não faz sentido sempre.
E aos poucos, tenho tentado perder o medo de ser a miúda doce para aqueles que amo. Tenho tentado disciplinar-me para ver sempre, sempre o lado deles. Tenho tentado confiar um bocadinho mais. Espero conseguir mantê-los aqui. Espero mesmo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

calo o gemido

Olho à volta e não sinto que faça parte disto. Deste rebanho. Parecem ovelhas, parecemos ovelhas, vamos todos na mesma direcção, apesar dos diferentes destinos. Vamos todos de pé, a carruagem cheia e os olhares tão vazios. Vão todos sozinhos, vamos todos sozinhos, apesar de estarmos no meio de uma multidão. Apesar de estarmos rodeados de gente sozinha. 
A maioria vai de smartphone nas mãos, que é mais fácil comunicar através de um écran do que sorrir para quem está ao nosso lado. Auscultadores enfiados nos ouvidos e assim ninguém mete conversa. Aquele ali pode estar sentado ao lado da mulher da vida dele, mas é no tinder que procura o match perfeito. 
Abrem-se as portas. Saem em manada. Saímos em manada. Seguimos pelo mesmo corredor atafulhado de gente, atafulhado de pessoas sozinhas que seguem num aglomerado populacional que nem permite ver a cor do chão. 
Saio do metro e tenho que parar nas escadas. Já vejo o céu daqui. Preciso de respirar. Não era aqui que queria estar. Não foi este o quadro que pintei para o meu futuro. A minha vida adulta não era desta cor nem tinha este aspecto. Será que tenho que passar por aqui para lá chegar ou estou a desviar-me completamente da rota? Ainda não são dez da manhã e em vez de estar no epicentro da confusão deveria estar a arrumar a mesa do pequeno-almoço que preparei de véspera para os miúdos. 
Tento esconder estas lágrimas por detrás dos óculos de sol, saco um cigarro que fumo rua acima. Eu não quero ser um deles. Calo o gemido, lembro-me da força que guardo dentro de mim e avanço. Os passos pesam-me. Respiro fundo e entro. Para quê?

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

F É R I A S


Este blog está oficialmente de férias! Lady Lamp volta em breve, com mais dissertações, disparates, muitas dicas de #anarendallstylist, prosa poética, opiniões, episódios aleatórios, dramas existenciais e o bronze em dia, claro! Até já!

terça-feira, 2 de agosto de 2016

As pessoas não gostam de honestidade.

Beyoncé
As pessoas não gostam de honestidade, dizia um amigo. As pessoas não gostam da coerência de quem age em concordância com o que sente ou pensa. As pessoas preferem o cinismo. É-lhes mais confortável a hipocrisia. Quem diz o que pensa, quem manifesta desagrado, é louco. 

Não sou dessas que dizem o que lhes apetece sem ponta de educação e de respeito pelo outro - essa é a versão enviesada, foleira e barata da honestidade. Erradamente, consideram-se honestos aqueles que deitam cá para fora toda e qualquer parvoíce que lhes passa pela mente, sem filtros, sem cuidado para não ferir susceptibilidades alheias e sem noção dos limites e das fronteiras do espaço privado de cada um. Não é com essa conduta que me identifico nem é a ela que me refiro. 

Quando o assunto é honestidade, falo da natural frontalidade que sinto como obrigatória em qualquer relação. Seja no campo profissional ou no meu círculo de amigos, tento sempre falar, ou não fosse mulher de Comunicação. Acredito que é através do diálogo que se resolvem e esclarecem todo o tipo de atritos ou mal-entendidos, embora por vezes me esqueça de que para haver diálogo é preciso que existam, pelo menos, dois seres humanos que cumpram funções de emissor e de receptor, caso contrário, a mensagem não é veiculada, recebida, interpretada, discutida. 

Às vezes, não serve de nada dizer. E quando assim é, se antigamente me dava ao trabalho de escarafunchar até receber sinais de vida do outro lado, agora não tenho pachorra: vou-me embora. 
Demorei muitos anos até perceber que não posso entrar na cabeça ou no coração dos outros e fazê-los ver, percepcionar e sentir o que eu sinto como real. Que as realidades variam de pessoa para pessoa, que cada um terá a sua verdade e que não me compete resolver todo e qualquer problema. 
Demorei mais anos ainda até perceber que só sou responsável pelo que digo ou escrevo, não pela interpretação que fazem disso.
E demorei uma vida até perceber que a única coisa que devo e posso fazer é proteger-me. É por isso que quando a energia não flui naturalmente, quando o clima me incomoda e começa a afectar a minha boa vibe, me afasto. 

Reparo que a maioria das pessoas que conheço teme tomar qualquer atitude que desagrade os outros, mesmo que os outros não tenham cuidado com elas. A maioria das pessoas que conheço teme o confronto ou qualquer postura que não seja adorável, gentil ou que represente um sacrifício qualquer. Por outras palavras, não querem que caia mal se fizerem o que lhes der na real gana. Então continuam a expor-se a energias negativas, continuam a ter contacto próximo com pessoas que não lhes fazem bem e cuja presença as incomoda, continuam a depositar em si rancores e a albergar ressentimentos, em prol de uma tradição ou costume que criaram nos seus cérebros. E esta resistência à óbvia mudança não é positiva. Mas já lá vamos.

O que me fez pensar nisto foi a simples observação de vários momentos e situações que vivi nos últimos tempos. Reflexão feita e concluo que eu, que optei por dizer e me afastar quando não me senti amada como mereço, bem-vinda ou agradavelmente recebida, dei por mim feita vilã, como quem perturba a paz do planeta por se preservar e estimar. 

Feitas as contas, só eu tomo conta de mim, do mais íntimo do meu ser, da minha alma. Não quero atribuir a ninguém a responsabilidade de interferir de algum modo na minha paz. É esse o único motivo que leva a que me resguarde de tudo o que não contribua para o meu bem-estar. E faço-o sem mágoas, sem dramas, sem fitas, porque aprendi que nesta nossa passagem por cá, as pessoas vão, voltam, surgem e tornam a ir, como tiver de ser. Quando desrespeitamos esses ciclos, sorvem de nós e nós poluímos o ar dos outros. E se assim é, mais vale aceitar e deixar ir, aceitar e deixar vir. Daí ter escrito que a resistência às mudanças não é positiva.

Sei que há pessoas com quem temos ligações mais profundas e que se vão mantendo ao nosso lado, mas também admito que sejam poucas. Num mundo povoado por seres que ignoram conceitos básicos e simples como a lealdade, não poderia ser de outra forma. 

Certeza de que não abdico é a de que não abro mão dessa transparência, dessa fidelidade ao Eu, de que a franqueza sincera e a negação da hipocrisia são estandartes. 

Há muitos anos, alguém me ensinou a depositar nos outros o peso que deixam em nós. A história era mais ou menos esta: certa noite, uma mulher já farta de sentir o rebuliço do marido pela casa durante as madrugadas, perguntou-lhe o que lhe tirava o sono.

«- Todos os dias, o Manuel me liga a perguntar se já tenho o dinheiro para pagar o que lhe devo. À noite não consigo dormir porque sei que me vai ligar pela manhã com a mesma questão.

- Ah é? Ele faz isso e é isso que te rouba a paz?

- Sim, porque tenho trabalhado imenso mas ainda não reuni o montante necessário e já não sei o que lhe responder.

- Deixa estar. Eu resolvo.»

Expectante e muito ansioso para descobrir que solução havia sido encontrada, o marido viu a esposa pegar no telemóvel, marcar o número do Manuel e dizer:

«- Manuel? Daqui é a esposa do Joaquim. É só para avisar que ele não vai pagar a dívida amanhã. Nem depois. Nem para a semana. Pode parar de ligar.»

Desligou imediatamente a chamada e perante a expressão incrédula do marido, saiu apenas:

«- Pronto, está resolvido. Podes dormir tranquilo que agora quem não dorme é ele!»

Permitam-me a analogia, é mais ou menos isto que me faz acreditar que a expressão do desagrado não é inútil. É que quando revelamos ao outro que não gostámos de algo, o peso sai de nós e fica do lado de lá. Retiramos de nós o que nos aumentou a carga e depositamos na origem. Claro que não defendo a acusação e o julgamento gratuito, mas creio que de uma forma saudável, é este desanuviar que ajuda a manter a paz cá dentro. Porque essa não pode ser abalada por atitudes que não foram minhas.